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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Código florestal e imprensa

Miopia midiática


por Mair Pena Neto
 
  
A edição de O Globo de 25 de maio estampava a seguinte manchete: "PMDB e ruralistas derrotam Dilma e anistiam desmatadores". Nada de errado na informação. A presidente de fato não desejava a aprovação desta emenda ao Código Florestal, que classificou como uma vergonha para o Brasil, segundo as palavras do líder do governo na Câmara, ditas em plenário para tentar derrubá-la. Mas o resultado da votação dos deputados tinha um perdedor maior do que a presidente da República: o próprio país. E num olhar exclusivo sobre as disputas políticas, e obsessivo no que se refere aos revezes do atual (e do ex) governo, perdeu-se a perspectiva do fato maior, que atinge todos os brasileiros.
O que estava em discussão não era uma queda de braço entre governo e oposição ou entre governo e aliados infiéis. O que a Câmara dos Deputados tratava era do conjunto de regras que rege a questão ambiental no Brasil, envolvendo todos os nossos biomas, áreas agrícolas, montanhas e rios. O nosso presente e o nosso futuro. E como a manchete de O Globo expressou, embora ressaltando outro aspecto, quem saiu vencedor foram os ruralistas, um dos setores mais atrasados socialmente no país e, em sua volúpia, em nada comprometido com a preservação do meio ambiente.
A reforma do Código Florestal Brasileiro, em si, já trazia aberrações, como autorizar plantações e criação intensiva de gado em áreas de preservação permanente, redução dos limites de reserva legal e redução da recuperação das faixas de mata ciliar desmatadas. Para coroar o processo, foi aprovada a emenda que anistia os desmatadores, comemorada efusivamente pelos ruralistas.
Assim, quando forem noticiados números gigantescos de desmatamento da Amazônia, ninguém deverá se espantar. Os ruralistas estão à vontade para aumentar a fronteira da soja, mesmo que às custas de nossa principal floresta. Quando a cobertura vegetal às margens de nossos rios for ainda mais reduzida, provocando erosão e enxurradas devastadoras, como a do último verão na região serrana do Rio, as razões estarão cristalinas.
O Brasil trava uma luta difícil e quase inglória contra o desmatamento em suas enormes áreas de floresta e todos ficam chocados quando sabem que a área desmatada da Amazônia em um ano equivale a quatro vezes à da cidade de São Paulo, a maior do país. E isso, com base em dados de agosto de 2009 a julho de 2010, quando o desmatamento teve sua menor taxa em duas décadas. Antes, era muito mais. É doloroso ver imagens de tratores andando simultaneamente, unidos por correntes, derrubando dezenas de árvores ou de gigantescas áreas desmatadas para criação de gado, que se alimenta da soja, também destruidora.
O que foi aprovado na Câmara foi a impunidade a este tipo de crime. Que estímulo terão os parcos fiscais do Ibama para autuarem os infratores sabendo que acabam anistiados? O que aconteceu na noite de 24 de maio no plenário da Câmara dos Deputados em Brasília foi uma derrota do Brasil e da maioria dos brasileiros. E a imprensa, em sua pequenez política, não traduziu isso.
Essa é uma questão recorrente na imprensa brasileira, principalmente quando envolve embates políticos. A falta de visão do todo e dos interesses maiores do país. Às vezes, os jornais perdem até o bonde da história, como aconteceu com a Folha de S.Paulo, em outubro de 1989, quando caiu o muro de Berlim. Naquele dia, como contou o ex-ombudsman do jornal, Caio Túlio Costa, em artigo no Observatório da Imprensa a manchete do diário paulista tratou do caso Lubeca, que ninguém se lembra sequer do que se trata. O século 20 passava por uma de suas maiores transformações e a Folha não via. Tanto que escolheu agora, como manchete de uma edição comemorativa de suas 30 mil edições, justamente o fato que não tratou como notícia principal quando acontecia.
 A míopia midiática é agravada quando os jornais perdem sua função de servir à sociedade e se aliam a certos setores e interesses para combater governos. A busca constante de algo que enfraqueça ou deslegitime estes governos acaba os afastando dos interesses maiores do país e do que é realmente notícia.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Livro aborda a Comunicação como instrumento fundamentall rumo à Sustentabilidade

O ambientalista Vilmar Berna, diretor-fundador da Rede Brasileira de Informação Ambiental (Rebia) editor da Revista e do Portal do Meio Ambiente, está lançando mais um livro – o 20º de sua carreira literária – sobre o tema Comunicação Ambiental: reflexões e práticas em educação e comunicação ambiental”. Berna, que esteve em Macaé em maio deste ano para proferir palestra na III Feira de RSE Bacia de Campos, também participará da Feira e Seminário Internacional de Meio Ambiente Industrial e Sustentabilidade (Fimai 2010), nos dias 09, 10 e 11 de novembro, no Pavilhão Azul do Expo Center Norte, em São Paulo, onde o novo livro também estará sendo lançado.


No dia 10, o ambientalista fará uma palestra sobre Comunicação Ambiental, com início às 19 h e término às 20 h, tendo como debatedores o jornalista Dal Marcondes, editor geral da Envolverde e autor da apresentação do livro, o publicitário Rogério Ruschel e o jornalista Fabrício Fonseca Ângelo, autor do capítulo especial do livro sobre o histórico do jornalismo científico ambiental no país.



Segundo Vilmar, a mudança que todos queremos e precisamos rumo a uma sociedade sustentável, resulta de nossas escolhas. “Escolhas essas que são baseadas nas informações que recebemos, e é isso que abordamos nos textos”, afirma. Nesta nova publicação Berna apresenta experiências vividas desde o ínicio da década de 80, quando ajudou a fundar a Univerde e a ONG Defensores da Terra. “A democratização da informação Ambiental é estratégica para a sensibilização e mobilização da população à um modelo econômico mais justo e ambientalmente correto”, ressalta o autor.


Importância

Vilmar Berna afirma que o jornalismo ambiental é muito importante para a cidadania ambiental global, mas está numa encruzilhada. “O ser humano sempre usou o planeta como um grande armazém que tudo provê e como um grande depósito sem fim de nossos restos; isso trouxe progresso, sem dúvida, mas precisamos ter em mente que um novo modelo de desenvolvimento é necessário. Precisamos aprender a viver com o planeta Terra e não contra o planeta”, lembrou.

“O papel da mídia nesse momento é fundamental, pois ela vai possibilitar que, através da informação de qualidade, em quantidade suficiente, vá permitir que a sociedade faça escolhas corretas entre um modelo insustentável e sabidamente predatório e um modelo sustentável. Sem informação, a sociedade não tem como decidir, pois a informação vem sendo negada à sociedade através de diversas formas: ela não tem acesso ao plano de mídia, a informação é sedimentada apenas no bicho e na planta, excluindo o ser humano”, enfatizou.

Berna entende que a mídia não tem conseguido passar isso para a sociedade, que, segundo ele, precisa receber informação com qualidade e quantidade para poder ter instrumentos para colocar em prática esse novo modelo de consumo, que vai “atender às nossas necessidades, sem prejuízo para o atendimento das necessidades das gerações futuras”, como definiu muito bem a dinamarquesa Gro Brundtland o conceito de consumo sustentável.

O papel do jornalista, segundo Berna, é muito importante. “Há inúmeras publicações sobre temas diversos, como jardinagem, Feng Shui etc., mas não há uma que reflita sobre a complexidade ambiental do Brasil”, explicou. “O homem ainda hoje se exclui do meio ambiente. Ele acha que a questão ambiental é importante, mas como não é estratégico, para ele também não é relevante”, frisou.

O editor da RMA ressaltou ainda que foi entregue uma moção ao Secretário Executivo do Ministério do Meio Ambiente, solicitando a implementação do Grupo de Trabalho de Informação Ambiental, que já está criado desde 2004, mas nunca foi instalado. Para Berna, cada município deveria ter um órgão que atendesse ao desafio que todos nós jornalistas ambientalistas temos, que é o de falar para a sociedade e não apenas para nós mesmos.

Berna considera um “absurdo” que a mídia ambiental esteja competindo com a Veja, Rede Globo etc., pois, segundo ele, “não interessa a uma grande empresa poluidora anunciar em uma mídia que a critica”. Por fim, Berna defende que 5% das verbas com publicidade do governo devem ir para mídias ambientais.

MAIS INFORMAÇÕES:

Para ler mais artigos do Vilmar aqui

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A caatinga brasileira já perdeu 53,62%

05/05/2010 -
A caatinga brasileira já perdeu 53,62% de sua cobertura original, devido ao desmatamento

Silvia Pacheco
Fonte: Correioweb - Eu estudante





Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a área também é a “mais vulnerável” aos efeitos das mudanças climáticas e corre sério perigo de desertificação




A caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, é conhecida como cenário de histórias do cangaço e dos heróis do escritor Ariano Suassuna; e por ser a terra do xote, do xaxado e do baião. Porém, poucos conhecem as riquezas ambientais da região que abriga 13 milhões de pessoas e está presente em 10 estados brasileiros. Esse bioma, encrustrado no semiárido, está agora ameaçado de extinção pelo crescente desmatamento de sua vegetação original. A constatação foi feita no estudo realizado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em conjunto com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), que monitorou entre 2002 e 2008 todo o bioma. LEIA MAIS....


Aluno em atividade: Leia a matéria acima e identifique os fatores preconizados por Wilson Bueno, no livro Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa, observando os itens a seguir:

MÍDIA
EDITORIA
MANCHETE
REPÓRTER

aspectos:
POLÍTICOS
ECÔNOMICOS
CULTURAIS
SOCIAIS/SOCIEDADE
TECNOLÓGICOS
CIENTÍFICOS
FONTES (variadas)

ENGAJAMENTO (repórter)
CAUSAS
CONSEQUÊNCIAS

IMAGENS
BOX
INFOGRÁFICO

sexta-feira, 28 de maio de 2010

É preciso navegar para saber mais sobre meio ambiente!

Aluno em atividade: Navegue nos links abaixo, escolha cinco, faça uma resenha de cada um apontando o tipo de instituição (se governamental, privada, ONG etc.) representada pelo sítio, qual é a sua missão, objetivos, quais os tipos de conteúdos veiculados, quais são as características visuais e de navegação (interface amigável? imagens, organização de assuntos etc.). Após, conhecer o site faça uma resenha  com os dados coletados e dê também sua opinião sobre o site. O trabalho é  para leitura em sala e portfólio do segundo bimestre. As melhores resenhas serão publicadas no Textual Online.

sites ambientais

amazônia - amazonia.org.br
• aquecimento global - mundo quente. notícias e artigos sobre o fenômeno climático.
as plantas - informações sobre as plantas. chave da vida no planeta
biólogo.com.br - conhecer para preservar.
ibama - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos recursos naturais renováveis.
fundação sos mata atlântica - Conheça o site desta importante fundação.
instituto de pesquisa ambiental da amazônia - www.ipam.org.br
jornal do meio ambiente - meio ambiente, ecologia e informação atualizada.
(o) eco - reportagens, salada verde, colunas, entrevistas, o eco.net
recicloteca - Lixo, reciclagem, coleta seletiva, educação ambiental e informação ambiental.
socioambiental.org - legislação, manchetes, notícias
Colegiados do MMA

Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) 
Comissão de Gestão de Florestas Públicas (CGFLOP)
 Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) 
Comissão Nacional da Biodiversidade (Conabio).
 Comissão Nacional do Programa Cerrado Sustentável (Conacer) 
Comissão Nacional de Florestas (Conaflor)
Conselho Nacional do Meio Ambiente ( Conama )
 Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA)


blogs ambientais


ambio - blog da Lista Portuguesa de Ambiente (Portugal)
  bioterra - reflexões sobre educação ambiental (Portugal)
blog do planeta - do editor de Ciência & Tecnologia da revista Época

dias com árvores - interessante blog ecológico (Portugal)
eco-repórter-eco - notícias, opiniões, críticas, causas ambientais
plantas do cerrado - conhecendo um dos tesouros do Brasil
jornal da biologia - notícias diárias sobre meio ambiente e biologia
mundo animal - questões éticas sobre animais
ondas - casos, questões e políticas
os ambientalistas - curiosidades, política, experiências (Portugal)
tupiniquim - defesa do meio ambiente e direitos indígenas

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Meio ambiente, ocupação irregular, omissão do governo

08/01/2010 - 23:45 - ATUALIZADO EM 09/01/2010 - 00:23
Catástrofes como a de Angra dos Reis nascem de uma combinação de chuvas fortes, ocupações irregulares e omissão do Estado. Como o uso equilibrado do solo e a tecnologia meteorológica podem salvar vidas
ALINE RIBEIRO E JULIANA ARINI

O primeiro dia do ano foi fúnebre para muitos brasileiros.Turistas e caiçaras morreram soterrados pelo deslizamento de encostas no Litoral Sul do Rio de Janeiro. No Vale do Paraíba, em São Paulo, estradas ruíram, deixando cidades isoladas. Numa delas, o centro histórico ficou submerso – e sua centenária igreja desmoronou. No Rio Grande do Sul, a cheia de um rio levou 100 metros de uma ponte, arrastando uma dezena de pessoas. Somadas, as tragédias do verão deixaram quase 70 mortos e milhares de desabrigados.

É um drama que se repete todos os anos, variando apenas de intensidade e de endereço. A combinação indesejada de chuvas fortes, ocupação irregular do solo e omissão do poder público tem se revelado devastadora. Culpar a força das águas não resolve. As chuvas podem ter sido cruéis, mas não são as únicas vilãs. Nem os deslizamentos de terra. “Se as casas atingidas não estivessem ali, seria uma acomodação geológica trivial”, afirma Ivone Valente, secretária nacional de Defesa Civil. “O que falta é fiscalização do uso do solo, além de planejamento urbano para conter a ocupação desordenada.” Se os deslizamentos de terra tiram tantas vidas no Brasil, como é possível evitá-los?

Na semana passada, depois de sobrevoar de helicóptero o trecho do litoral fluminense mais castigado pelas chuvas, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, anunciou que o governo federal vai liberar R$ 80 milhões para recuperar a cidade de Angra dos Reis e outros R$ 50 milhões para a Baixada Fluminense. O ministro admitiu que, em 2009, o governo gastou apenas 21% da verba de R$ 650 milhões destinada à assistência contra acidentes naturais, especialmente chuvas. A maior parte do orçamento serviu para reconstruir estradas e casas em Santa Catarina, cujo Vale do Itajaí foi arrasado pelas chuvas no fim de 2008. No Rio de Janeiro, cenário da mais recente tragédia, só se gastou 1,17% em ações preventivas. O governador do Rio, Sérgio Cabral, culpou os “40 anos de omissão dos políticos” no Brasil. Para ele, no Estado do Rio a ocupação de áreas de risco pela população de baixa renda é mais grave “porque associa a cumplicidade das autoridades ao poder paralelo do crime” (a entrevista completa com Cabral).

Catástrofes tropicais de diferentes naturezas causam estragos inqualificáveis. Em muitos casos, porém, as forças da natureza podem ser previstas. ÉPOCA listou sete perguntas e ouviu especialistas para ajudar a esclarecer por que flagelos como o da primeira semana do ano acontecem e como evitá-los.

1. Como impedir que a população ocupe áreas de risco?
A legislação brasileira proíbe edificações a menos de 100 metros de encostas e em altitudes superiores a 1.800 metros. As margens de rios também têm uma faixa protegida, que vai de 30 a 500 metros, dependendo da largura do curso d’água. Em morros semelhantes ao que deslizou em Ilha Grande, as construções são proibidas se a encosta tiver declividade superior a 45 graus. “Todo ano é a mesma situação: chove na serra e acontecem deslizamentos que matam pessoas. Só mudam os lugares e os nomes das vítimas”, diz Mário Mantovani, geógrafo e diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, que desde 1986 denuncia construções irregulares na Serra do Mar. Para ele, uma forma de impedir essas ocupações é tratar a omissão do poder público como crime: “Os governos, que se omitem contra essas construções irregulares, deveriam ser punidos como assassinos, porque eles permitem que as pessoas morem em regiões consideradas arriscadas pela própria legislação”. Para o governador Sérgio Cabral, na Ilha Grande há áreas intactas, cobertas de Mata Atlântica, e que, mesmo assim, vieram abaixo com os temporais. “Isso nos leva a crer que não dá para construir sobre rocha nem na base de matas intocadas”, afirma.

"Os governos, que se omitem contra as construções
irregulares, devem ser punidos como assassinos"
MÁRIO MANTOVANI, SOS Mata Atlântica

2. Os políticos levam alguma vantagem em manter as construções irregulares?
É raro ver políticos com coragem para remover moradores de áreas de risco. “É impopular tentar tirar as pessoas de seus terrenos, de suas casas”, afirma Marcia Hirota, diretora de gestão do conhecimento da SOS Mata Atlântica. “As invasões são incentivadas por vereadores e prefeitos, que transformam áreas irregulares em currais eleitorais”, diz Mário Mantovani. Eles prometem regularizar essas regiões para angariar votos nas eleições municipais. Mas não são apenas os invasores de baixa renda que ocupam ilegalmente áreas protegidas. No topo da pirâmide social, a especulação imobiliária joga os ricos para o alto dos morros, em busca de vistas exuberantes e isolamento. Em alguns casos, a Justiça favorece a ocupação, com liminares que impedem a remoção (leia a entrevista com Luiz Firmino Martins Pereira, presidente do Instituto Estadual do Ambiente).

No final de 2007, a Operação Carta Marcada, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, tentou varrer de Angra dos Reis os responsáveis por fraudar licenças ambientais para liberar obras irregulares. Figuravam da lista de presos funcionários da prefeitura suspeitos de desviar R$ 80 milhões dos cofres públicos. Só dois anos depois o prefeito Tuca Brandão anuncia a proibição de construções e ampliações em 15 morros do município.

Para retirar as moradias irregulares das áreas condenadas é necessária uma ação conjunta. As prefeituras deveriam fiscalizar as moradias, notificar e retirar os habitantes das áreas de risco. “No caso de Angra, a cumplicidade da elite e dos políticos, ao longo dos últimos 30 anos, deixou a cidade daquele jeito”, diz Sérgio Cabral.

O custo das remoções pode ser alto, mas não se compara às despesas que se seguem às catástrofes. O governo federal desembolsou R$ 1,5 bilhão para ajudar as vítimas da tragédia de 2008 em Santa Catarina, que resultou em mais de cem mortos, 80 mil desabrigados e 1,5 milhão de pessoas atingidas. No caso das tempestades recentes no Sul e Sudeste, o prejuízo já soma mais de R$ 1 bilhão – sem falar nas mortes.

3. Como remover as pessoas que já ocupam áreas ilegalmente?
Há poucos casos de sucesso no Brasil, mas um plano do governo de São Paulo tem sido apontado por especialistas como modelo. Lançado em junho de 2007, o Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar tem como meta retirar mais de 23 mil pessoas que vivem em áreas de risco na maior unidade de conservação de proteção integral da Mata Atlântica. Antes de remover as casas, o governo “congelou” a área invadida. Cerca de 70 homens da Polícia Militar Ambiental circulavam diariamente na região – a pé e motorizados – para interditar novas edificações. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) identificou ocupações em encostas, com alta probabilidade de desabamento. As famílias nesses locais seriam prioritárias para desocupação. O programa seguiu com a construção de novos bairros. A entrega das casas, prometida para o ano passado, ainda não foi cumprida. “Parte das famílias contempladas poderá ocupar as habitações ainda no primeiro semestre deste ano”, diz Edmur Mesquita, coordenador do programa. O planejamento dos bairros inclui a construção de escolas, unidades básicas de saúde e a criação de linhas de ônibus para atender os moradores. Cada proprietário terá de desembolsar R$ 70 ao mês durante 25 anos. Orçado em R$ 1 bilhão, o programa tem apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e deverá atender 5.350 famílias até 2014, além de reflorestar uma área equivalente a 186 campos de futebol. O plano pode servir de inspiração a outras cidades que precisam, com urgência, remover favelas de encostas.

4. É possível criar um alerta eficaz para chuvas e deslizamentos?
Com o sistema de monitoramento de que o Brasil dispõe hoje, a meteorologia não consegue prever, com exatidão, nem o tamanho da tromba-d’água e nem onde ela vai cair. O Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), um dos mais importantes do país, dá conta apenas de informações mais genéricas. Para superar essa limitação, só com os radares meteorológicos, cuja previsão certeira se dá com pouca antecedência – apenas quatro horas. O tempo é curto, mas pode ser suficiente para os moradores de áreas de risco deixarem suas casas. No Brasil, poucos institutos têm o recurso. “A Aeronáutica detém parte dos equipamentos desse tipo usados na aviação”, afirma Gustavo Escobar, coordenador do grupo de previsão de tempo do CPTEC.

No Rio de Janeiro, uma iniciativa pioneira já avisa os moradores de morros sobre possíveis deslizamentos de rochas. Quando há sinais de chuvas fortes, os técnicos disparam alertas para canais de TV e de rádio, que avisam a população. “As pessoas também podem acessar nosso site para obter as informações”, afirma Marcio Machado, presidente da Fundação Instituto de Geotécnica (Geo-Rio), que criou o sistema. Os dados sobre o tempo chegam até os técnicos a partir de 32 estações pluviométricas, radares meteorológicos (em parceria com a Aeronáutica), detector de raios e imagens de satélite. Um sistema de alerta de deslizamentos que evitaria tragédias como as que ocorreram na Serra do Mar pode ser inspirado nos modelos usados para prever avalanches nos Estados Unidos e no Canadá. Cruzando o monitoramento do solo com informações meteorológicas, ele pode alertar cidades sobre o risco iminente de escorregamentos com até duas horas de antecedência. “Esse sistema pode evitar tragédias em regiões densamente habitadas”, diz Juarês José Aumond, geólogo da Universidade Regional de Blumenau (Furb). Cada unidade pode monitorar uma área de 200 quilômetros de extensão e seu custo é estimado em R$ 3 milhões. Segundo Aumond, há um aparelho chamado Inclinômetro, capaz de analisar o deslocamento das encostas de determinados pontos das áreas de risco. Outro aparelho, o Piezômetro, mede o nível de água nos solos das montanhas para mostrar quando eles começam a liquidificar, ou seja, quando o solo começa a virar lama. Ambos poderiam ajudar a prevenir as pessoas em áreas atingidas pelas chuvas.

5. A natureza manda sinais?
A secretária Nacional de Defesa Civil, Ivone Valente, passou mais de 20 anos de sua vida remediando tragédias como a de Angra dos Reis. Ela é categórica ao dizer que os deslizamentos de terra, antes de ocorrerem de fato, mandam avisos. “É preciso confiar nos sinais da natureza”, afirma. Hóspedes da Pousada Sankay viram que as chuvas haviam transformado um pequeno veio d’água que descia do morro em uma cachoeira vigorosa. E junto com a água descia lama do morro. Observar rachaduras nas paredes das casas ajuda. Segundo Ivone, as marcas podem indicar movimentação do solo acima do aceitável. Outros dois vestígios anunciariam o desastre: água vertendo fora de tubulações ou do curso regular de riachos e o rolamento contínuo de cascalhos. Em casos extremos, Ivone aconselha que as pessoas sejam práticas e abandonem suas casas.

6. Alterações no Código Florestal podem aumentar o risco de desabamentos?
Tramitam no Congresso Nacional propostas de mudança no Código Florestal, a lei federal que determina a ocupação do solo no Brasil. Uma delas pretende reduzir o que se entende por zonas de riscos e regiões ambientalmente frágeis, as áreas de preservação permanente (APPs). “Muitas das propostas vão dar poder aos Estados para decidir o tamanho das áreas onde construções e atividades agrícolas são proibidas”, afirma Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente. A redução beneficiaria atividades econômicas, como construção civil e agricultura. “Apesar das questões financeiras envolvidas, os defensores das mudanças esquecem que essas áreas não são frágeis apenas para a natureza, mas também para os homens”, diz Raul Teles, do Instituto Socioambiental. Um estudo feito pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) revelou que 87% das áreas afetadas por deslizamentos na região do Baú, devido às chuvas de 2008, ocorreram em áreas onde estavam habitações e outras obras construídas de forma irregular em APPs. “Fiz uma pesquisa ampliada em todo o Vale do Itajaí e constatei a mesma situação em 82% das regiões”, diz Juarês Aumond, da Furb. “Isso é uma prova da necessidade de respeitarmos regiões de APPs para a segurança da própria população.”

7. Leis estaduais podem favorecer ocupações e aumentar os riscos?
Decretos estaduais não podem violar a Constituição Federal, que proíbe obras em áreas de risco como encostas, manguezais e rochas. Ambientalistas criticaram o decreto assinado em junho passado pelo governador Sérgio Cabral, acusando-o de favorecer novas construções na Área de Proteção Ambiental (APA) dos Tamoios, que engloba a Ilha Grande. “APA não é sinônimo de não poder fazer nada”, afirma Luiz Firmino, presidente do Inea. Segundo Firmino, o decreto ajuda a diminuir a degradação, pois permite construções em 10% de algumas áreas degradadas apenas com a condição de que o proprietário recupere os outros 90% do terreno.

Infografia: Marco Vergotti e Nilson Cardoso
Clique na imagem e confira o infográfico



quarta-feira, 17 de junho de 2009

Consumo sustentável


O conceito de consumo sustentável passou a ser construído a partir do termo desenvolvimento sustentável, divulgado com a Agenda 21, documento produzido durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO-92), no Rio de Janeiro, em 1992.
A Agenda 21 relata quais as principais ações que devem ser tomadas pelos governos para aliar a necessidade de crescimento dos países com a manutenção do equilíbrio do meio ambiente. Os temas principais desse documento falam justamente sobre mudanças de padrões de consumo, manejo ambiental dos resíduos sólidos e saneamento e abordam ainda o fortalecimento do papel do comércio e da indústria.


O desafio de que todos passem a pensar seriamente na necessidade de reciclar, de adotar um novo estilo de vida e de padrões de consumo é uma tarefa de todos: governos, cidadãos e cidadãs. A Associação Alternativa Terrazul, em parceria com a Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça e o Conselho Federal Gestor do Fundo de Defesa de Direitos Difusos, decidiu realizar oficinas sobre Consumo Sustentável em diversos municípios do Ceará, e agora elabora essa Cartilha para ajudar a vencer esse desafio.


Você já pensou na quantidade de água que utiliza para escovar os dentes, tomar banho lavar a louça, a roupa ou o carro? Ao deixar um cômodo você apaga a luz? Você se preocupa em casa, na escola, no trabalho em reciclar o papel que não tem mais utilidade ou o joga diretamente no lixo? Quando vai fazer compras, você adquire realmente o que necessita, ou, por atos compulsivos, ou sugestões de publicidades, vai adquirindo produtos supérfluos? Você prepara comida suficiente apenas para o consumo, ou faz a mais para depois jogar fora? Você se dá conta de que, se não começar a pensar nessas questões, além de consumir os recursos naturais do Planeta, que vão comprometer a vida das gerações futuras, esse consumismo desenfreado tem também impacto no seu bolso?


Se você acha que isso é muito complicado, e que, ademais, não é problema seu, leia com atenção as dicas e informações dessa cartilha e perceba o risco que está correndo, se não começar já a seguir essas recomendações.


Leia, divulgue na sua escola, no seu trabalho, na sua rua. Seja um consumidor consciente e faça parte dessa liga que vai ajudar a tornar o mundo mais justo e mais sustentável para todos e todas.


Fonte: Associação Civil Alternativa Terrazul (conheça o site!)
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ALUNO EM ATIVIDADE: Faça um resumo da cartilha (em duas páginas no máximo) , destacando seus pontos principais.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Até tirar a gravata pode ajudar a proteger o planeta.

11/06/09 - 21h19 - Atualizado em 11/06/09 - 21h19

Japão quer reduzir emissão de gases para aquecer a economia
País quer combater a recessão e o aquecimento global.



Do G1, em São Paulo, com informações do Jornal Nacional

O governo japonês lançou uma série de medidas para reduzir em seis por cento a emissão de gases que provocam o aquecimento do planeta. O objetivo também é reaquecer a economia, mas tudo de um jeito bem informal.



No emaranhado de caracteres japoneses, uma palavrinha para atrair os consumidores de qualquer língua: “eco”. Vem de “ecologia”, mas no Japão também significa “desconto”. É um projeto do governo: os consumidores ganham bônus em dinheiro ao comprar produtos que gastam menos energia e emitem menos dióxido de carbono, o gás responsável pelo aquecimento global.

Em meio a uma forte recessão, as empresas apostaram na ideia. As indústrias concorrem para lançar a geladeira e a televisão mais ecológicas. Consumidor consciente ganha mais cinco por cento de desconto na loja. O gerente diz que as vendas aumentaram em dez por cento desde que a promoção foi lançada no mês passado.

Este carro promete causar menos danos ao planeta que os concorrentes. Vem com um painel que capta a energia do sol para acionar o ar condicionado. A vendedora explica que, quando o carro está estacionado no sol, o calor lá dentro pode chegar a oitenta graus. Basta apertar o controle e em três minutos a temperatura estará agradável e sem gastar um pingo de combustível. A lista de espera para comprar um é de cinco meses.

Uma das medidas adotadas pelos japoneses para combater o aquecimento global não exige nenhuma novidade tecnológica: é tirar a gravata. É oficial, uma decisão do governo. Nos próximos meses, os japoneses estão livres desta formalidade. É mais confortável e – dizem eles – ajuda a proteger o planeta.

A lógica é simples: sem gravata fica mais fácil suportar o calor do verão e as empresas reduzem o uso do ar condicionado. O primeiro ministro Taro Aso e os colegas de trabalho deram o exemplo.

Alguns aproveitaram a proibição da gravata na reunião e, ao escolher a camisa, capricharam na criatividade. A moda já está nas ruas, e já acharam novos usos para a gravata. “Ela está no bolso só para dar um charme”, diz, “não ficou legal?”
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ALUNO EM ATIVIDADE: Analise a notícia acima e faça seu comentário acerca da decisão do governo.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental

Entre os dias 09 e 11 de outubro de 2009, Cuiabá será a sede da terceira edição do Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental. Desde a criação do Congresso, realizado em Santos/SP em 2005 pela Rede Brasileira de Jornalistas Ambientais – RBJA e Núcleo Paulista de Jornalismo Ambiental, as faculdades de comunicação começaram a olhar mais para questão ambiental e o tema começou a ser tratado com mais maturidade pela mídia brasileira.

Sentindo esse crescimento através de inúmeros pedidos de informações pelo e-group da Rede, entre outros fatores, o Núcleo de Ecojornalistas do RS organizou a primeira Mostra Científica durante o II Congresso, realizado em 2007 em Porto Alegre/RS. Desta mostra resultou o livro Jornalismo Ambiental: desafios e reflexões, organizado pela Profa. Dra. Ilza Girardi e pelo Mestre em Comunicação e Informação Reges Schwaab, reunindo os artigos apresentados na Mostra Científica e oferecidos por palestrantes e participantes do II Congresso.

Nesta terceira edição, o Núcleo de Ecomunicadores dos Matos – NEM traz o congresso para Mato Grosso, no centro do país, e dá seguimento à Mostra Científica. Nesta edição, a Mostra recebe o apoio de professores e pesquisadores de seis estados brasileiros, que compõem a Comissão Científica. O esforço empreendido pelo grupo é fazer a mostra crescer em qualidade e abrangência, afirmando este como um espaço importante para a valorização do conhecimento produzido dentro e fora das universidades sobre jornalismo ambiental.

A Mostra faz parte da programação do III Congresso, cuja proposta central é fazer análises sobre a suposta dicotomia entre desenvolvimento e meio ambiente, do ponto de vista jornalístico. Além das conferências e da Mostra Científica, a programação do Congresso conta com Mostra de Vídeo Ambiental, oficinas, minicursos e mesas redondas. Mais informações e o edital estão disponíveis nos sites: www.dosmatos.org.br, www.icv.org.br. O edital e o template estão disponiveis para download no final desta página.

Os objetivos do III Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental são:

• Contribuir para o debate entre desenvolvimento e meio ambiente, tendo em vista grandes obras de infra-estrutura pensadas e em implementação no Brasil e América Latina, qualificação profissional na construção de pautas sobre a temática ambiental, apuração de informações e produção de conteúdos jornalísticos;
• Estimular o diálogo entre imprensa, empresas, governos, ONGs e movimentos sociais frente a questões ambientais;
• Estimular estudantes e profissionais de Comunicação, em particular de Jornalismo, para a pesquisa e produção acadêmica na área ambiental;
• Possibilitar à sociedade o contato com importantes temas da realidade ambiental do país e do mundo.

O público esperado para o congresso é de jornalistas, estudantes, comunicadores e outros interessados. A expectativa é de trazer entre 300 a 500 congressistas, divididos entre jornalistas de diferentes regiões do país e da América Latina, que atuam na grande imprensa, assessorias, imprensa especializada, a imprensa alternativa, do terceiro setor, produtores independentes e academia.

A participação de profissionais de comunicação, stakeholders e líderes de ONGs e movimentos sociais está sendo estimulada não somente em oficinas e mostras fotografias e de vídeo como também nas principais discussões, visando garantir um debate aprofundado entre a imprensa e o intercâmbio de experiências.

O evento conta com apoio institucional do Sindicato de Jornalistas de Mato Grosso – Sindjor – MT, Instituto Centro de Vida – ICV, Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento – Formad, Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul, EcoAgência de Notícias (RS) e Agência Envolverde (SP), além de ter a Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental como co-organizadora.

sábado, 30 de maio de 2009

As mudanças do jornalismo ambiental.

Entrevista especial com Wilson da Costa Bueno



As primeiras coberturas específicas do jornalismo ambiental foram feitas após a Segunda Guerra Mundial, quando a questão do meio ambiente ganhou relevância global. Passados mais de quarenta anos desde as primeiras coberturas e reportagens, a prática do jornalismo ambiental ainda engatinha no Brasil. As notícias publicadas estão, direta e praticamente, ligadas apenas à mobilização da sociedade acerca do tema, mas, ainda assim, as ONGs enfrentam dificuldades para publicar seus manifestos e opiniões em todo o País. É nas mídias mais alternativas, como a internet, que o jornalismo ambiental tem maior espaço. Sobre este assunto, a IHU On-Line conversou, por e-mail, com Wilson Bueno. Ele falou sobre o desenvolvimento científico e teórico em relação ao jornalismo ambiental no Brasil, de como deseja mudar a forma como o País trata a prática e de como a questão do meio ambiente deveria ser tratada pela mídia brasileira.

Wilson da Costa Bueno é graduado em Comunicação e especialista em Comunicação Rural, pela Universidade de São Paulo (USP), onde também realizou o mestrado e o doutorado em Comunicação. Atualmente, é professor da Universidade Metodista de São Paulo e diretor executivo da Contexto Comunicação e Pesquisa.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para o senhor, como está o desenvolvimento científico e teórico em relação ao jornalismo ambiental no Brasil?

Wilson Bueno - O jornalismo ambiental tem, gradativamente, mudado de patamar em relação à qualificação da cobertura, mas ainda encontramos desafios imensos a serem vencidos. Não dispomos, no caso da mídia impressa, de veículos com penetração nacional e dependemos, portanto, para o nosso diálogo com a sociedade dos veículos regionais e locais. Com raras exceções, não há jornalistas capacitados na área nesses veículos e, com isso, a cobertura ainda é precária. Na televisão e no rádio, tem havido algumas mudanças importantes (cito os casos da Globo News, com o excelente trabalho feito pelo André Trigueiro [1], e os do Repórter Eco [2], da TV Cultura, entre outros), mas ainda o meio ambiente é visto como espetáculo, o que é típico da mídia eletrônica. As mídias ambientais, pelo menos as legítimas, têm cumprido um papel importante, especialmente na Web, mas em geral tem atingido pessoas já despertas ou comprometidas com a temática. As universidades ainda não acordaram para a formação na área e há poucos cursos (uns cinco no máximo) na graduação e raras linhas de pesquisa ou projetos na pós-graduação. Mas aposto que a situação deve mudar nos próximos anos, se nós fizermos o trabalho bem feito e não assumirmos o meio ambiente como mais uma pauta que dá audiência.

IHU On-Line – Alguns de seus alunos afirmam que o senhor deseja mudar a forma como o jornalismo ambiental é feito no Brasil. O jornalismo ambiental brasileiro é fragmentado? De que forma ele precisa ser melhorado?

Wilson Bueno - O jornalismo ambiental precisa mudar por vários aspectos. Em primeiro lugar, não se pode praticar o jornalismo ambiental sem compromisso, apostando numa pretensa neutralidade, objetividade etc. Em segundo lugar, o jornalismo ambiental não pode focar-se apenas no aspecto técnico, porque o importante, se quisermos efetivamente trabalhar para a solução dos problemas, é perceber as conexões entre o meio ambiente, a política, a economia, a cultura, a saúde e a sociedade. Esta perspectiva fragmentada, que vem a reboque da cobertura de grandes catástrofes, não contribui para fortalecer o jornalismo ambiental, apenas o coloca na agenda, sem comprometer-se com um debate sério, abrangente, como deve ser. Finalmente, o jornalismo ambiental deve atentar para os grandes interesses que rondam essa área e ter em mente que existe na prática a chamada praga do marketing verde.

Trata-se de uma estratégia de comunicação e de marketing bem orquestrada, sob a responsabilidade de determinadas empresas e segmentos industriais (agroquímica, celulose e papel, biotecnologia, petroquímica, mineração etc), que têm como objetivo manipular a opinião pública e escamotear o problema, que é dramático. Quando se identifica uma empresa como a Monsanto (3), presente em nossas escolas, patrocinando uma educação ambiental transgênica; quando se observa a invasão das agroquímicas nos cursos de Agronomia e o lobby poderoso das corporações para que os seus interesses continuem prevalecendo em detrimento do interesse público, não se pode ficar calado. Não queremos que o País se transforme num canavial ou numa imensa plantação de eucaliptos.

IHU On-Line – Como o jornalista ambiental deve contextualizar a população sobre esse modelo desenvolvimentista?

Wilson Bueno - O jornalista deve trabalhar adequadamente os conceitos (plantação de eucaliptos não é floresta, nunca será; as mineradoras não produzem minério, apenas o extraem e assim por diante), evitar o sensacionalismo presente na cobertura das catástrofes ambientais, cada vez mais comuns, buscar fontes independentes, valorizar o conhecimento tradicional, denunciar os lobbies e ficar atento à ação de agências e assessorias que fazem o trabalho sujo de limpeza de imagem de empresas predadoras. O jornalista não pode ficar em cima do muro. Ele deve tomar partido, porque, afinal de contas, o Planeta está mesmo sendo destruído, aqui e lá fora. A farsa da redução do desmatamento no Brasil, as soluções cosméticas e cínicas que pregam a neutralização do carbono como aval para a continuidade da poluição, o uso indiscriminado de agrotóxicos e o cinismo de empresas como a Monsanto (transgênicos vão mesmo matar a fome ou encher o bolso de seus acionistas?) precisam ser denunciados. Temos que defender uma perspectiva plural, não transgênica, não celulósica, não agroquímica. O jornalista precisa esclarecer a população sobre o mito do desenvolvimento sustentável e colocar a mão na ferida: o modelo de desenvolvimento é insustentável e pronto e não há saída se não usarmos o bisturi. Com mertiolate e band-aid, a sangria não estanca.

IHU On-Line – A cobertura sobre meio ambiente na imprensa brasileira tem crescido, pautada principalmente por temas polêmicos, como transgênicos, mudanças climáticas, biodiversidade e biopirataria. De que forma as mudanças climáticas têm sido abordadas pela mídia nacional e internacional?

Wilson Bueno - A imprensa já fez o seu papel, alertando para os problemas relacionados com as mudanças climáticas, e agora precisa encaminhar bem o projeto para sua solução. Não é plantando árvores depois de poluir o mundo (a campanha da Ipiranga é terrível, porque quer vender gasolina usando o apelo ecológico!) ou apostando que haverá no futuro uma solução tecnológica para a crise que ela irá contribuir para o debate. Não é fazendo apologia do carro biocombustível (quando as pessoas continuam enchendo o tanque com gasolina) ou comendo docinho orgânico que o mundo será salvo. Essa solução fácil, sem dor, não existe e a imprensa precisa trabalhar esta questão de maneira direta. Com neutralidade, não dá. Infelizmente, ela tem recorrido, sobretudo, a fontes comprometidas com os grandes interesses (inclusive pesquisadores financiados pelas corporações) e enreda-se na armadilha que ela mesma tem criado. Ela precisa abrir a pauta, ouvir as ONGs, conversar com os cidadãos, colocar o pé na estrada e ver o que anda acontecendo com as nossas florestas, o cerrado, o mar, os rios etc. Jornalismo ambiental de gabinete não funciona: é, como nós dizemos em São Paulo, frescura. Talvez alguém queira nos convencer de que isso é que neutralidade jornalística.

IHU On-Line – Qual é a sua opinião sobre os fóruns locais sobre o meio ambiente? São formas de informar e chegar mais próximo da população ou também fragmentam a informação?

Wilson Bueno - Sim, dependendo evidentemente de quem organiza os fóruns locais (se for a Bayer [4], a Monsanto ou a Aracruz [5] será um horror!), mas o importante é que esta discussão seja mesmo feita localmente, envolvendo a comunidade, tratando, sobretudo das questões que a afligem.

IHU On-Line – O que as pessoas entendem e pensam sobre meio ambiente?

Wilson Bueno - Ainda muito pouco porque os conceitos (sustentabilidade, desenvolvimento sustentável, agrotóxicos , transgênicos etc.) são mal trabalhados pela mídia e a educação ambiental ainda não ganhou a dimensão devida. A televisão continua fazendo a apologia do consumo não consciente (haja baterias de celulares e fast food!), e as empresas mantêm sua disposição de ludibriar a opinião pública com seus produtos e posturas insustentáveis. É preciso que fique claro: agrotóxico é veneno e não remedinho de planta; plantação de eucalipto não é floresta, porque afronta a biodiversidade e só serve para atender a objetivos comerciais e transgênico usa pesticida, herbicida “pra burro”. O jornalismo ambiental tem um papel importante e esperamos que ele cumpra esse papel. Afinal de contas, a sociedade e a legislação não delegaram privilégios aos jornalistas (como o diploma e a exclusividade do exercício) para que eles façam o jogo do bandido. Jornalismo ambiental e qualquer jornalismo exigem compromisso com o interesse da comunidade. O resto é balela, conversa para boi dormir ou para engordar os lucros de empresas predadoras. Que o governo também assuma o seu papel e não continue utilizando o meio ambiente como plataforma política. Olho vivo com parlamentares verdes (o Partido Verde já amarelou faz tempo!) e com empresas que se proclamam ambientalmente responsáveis. Abaixo o marketing verde!

Notas:

(1) André Trigueiro é um jornalista brasileiro especializado em Jornalismo Ambiental. É repórter e âncora da Globonews. Possui pós-graduação em Gestão Ambiental, pela COPPE/UFRJ. É professor e um dos criadores do curso de Jornalismo Ambiental da PUCRio. É autor do livro Mundo sustentável: abrindo espaço na mídia para um Planeta em transformação (Editora Globo, 2005).

(2) O Repórter Eco é uma revista semanal, atual, especializada em meio ambiente. Aborda, de forma aprofundada, pesquisas para o desenvolvimento sustentável e conservação dos biomas brasileiros, proteção da rica diversidade biológica e cultural do País, projetos para manter para o futuro os recursos hídricos, estudos de controle da poluição do ar, solo, terra e água, ecologia urbana, fontes de energia alternativas e renováveis, astronomia, antropologia, arqueologia, arquitetura ecológica, redução, reuso e reciclagem de resíduos sólidos, comércio justo, patrimônio histórico, cultural e arquitetônico e ecoturismo. Além da revista semanal, são produzidos programas temáticos a partir de viagens nacionais e internacionais. O Repórter Eco mantém um quadro específico de reportagens sobre a biodiversidade brasileira.

(3) A Monsanto é uma indústria multinacional de agricultura e biotecnologia. Seus produtos e suas agressivas práticas legais e de lobby têm feito da Monsanto um alvo primário do movimento antiglobalização e de ativistas ambientais.

(4) A Bayer é um conglomerado farmancêutico alemão, conhecido por ser o fabricante da Aspirina.

(5) A Aracruz Celulose é a maior produtora mundial de celulose branqueada de eucalipto, respondendo por 27% da oferta global do produto. Possui uma unidade fabril de Aracruz, em Guaíba no Rio Grande do Sul e em Eunápolis, na Bahia. A Aracruz é criticada internacionalmente por ativistas de movimentos sociais por ocupar terras de povos indígenas e quilombolas. Também é criticada pela poluição das águas e do ar e por causar poluição devido a dioxinas, material cancerígeno gerado pela produção de celulose..

(Fonte: Eco Debate)
Entrevista originalmente publicada pelo IHU On-line, 07/11/2007
[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS. ]

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Jornalismo Ambiental

O Jornalismo Ambiental, com um desenvolvimento marcante nos últimos anos, em função da inclusão da Ecologia como pauta diária nos veículos de informação, compreende a divulgação de fatos, processos, estudos e pesquisas associadas à preservação do meio ambiente e da diversidade.


No Brasil, ele se manifesta nos veículos tradicionais (jornais e revistas de circulação nacional), mas também a partir de iniciativas relevantes, como o premiado Jornal do Meio Ambiente, de Vilmar Berna, e do Terraamérica, comandado, no Brasil, pela competente equipe da Envolverde.


Inúmeras ONGs ambientalistas também o praticam e pode se identificar, nesta modalidade de jornalismo, o caráter positivo da militância, isto é, quando identificado com a causa ambiental (e deveria ser sempre assim), o jornalismo ambiental é engajado, comprometido, o que não significa que deva forjar os fatos ou manipular a verdade para fazer valer a sua opinião. É importante não deixar de mencionar o Greenpeace, a WWF e a SOS Mata Atlântica, como representantes deste universo e, a partir delas, reverenciar todas as outras entidades que vêm fazendo, com competência e entusiasmo, este trabalho.


Recentemente, polêmicas travadas em virtude de alguns temas candentes, como os transgênicos, a biopirataria como ameaça à diversidade e à soberania nacionais, o aquecimento global (efeito estufa e subtemas equivalentes) e a segurança alimentar (que o diga a vaca louca!) trouxeram novo impulso ao Jornalismo Ambiental.


O Jornalismo Ambiental e o Jornalismo em Agribusiness tem áreas de intersecção importantes, mas não se confundem: o primeiro refere-se também a temas que, em princípio, nada tem a ver com o agronegócio, como a questão do lixo urbano, a poluição industrial, os edifícios doentes e assim por diante. Quando recorre a temas, como transgênicos, agrotóxicos, desmatamento, segurança alimentar, evidentemente as diferenças, entre um e outro, são menos perceptíveis, embora o Jornalismo Ambiental veja estas questões sempre sob uma perspectiva crítica, o que pode não ocorrer no Jornalismo em Agribusiness, se comprometido com os interesses das grandes empresas.


O Jornalismo Ambiental tem uma atuação fundamental na Web e podemos destacar, também, o grupo de colegas atuantes no ECOM - Ecologia & Comunicação, a equipe da Embrapa Meio Ambiente, com sua atuação e seu informativo sempre atualizado, e inúmeros colunistas (Jornal do Brasil, O Povo/CE etc). 


Referência obrigatória é o grupo de discussão sobre jornalismo ambiental, integrado por mais de duas centenas de profissionais, pesquisadores e estudiosos da área, que se caracteriza pelo dinamismo e pela relevância das informações trocadas na rede (jorn-ambiente@yahoogrupos.com.br). Outra fonte fundamental é a Rede dos Jornalistas Ambientais Brasileiros (www.jornalismoambiental.jor.br)



quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Livro discute desafios e perspectivas do Jornalismo Ambiental



Publicação do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul traz 32 textos de autores nacionais e internacionais


Fonte: Blog Ecoagência

O Núcleo de Ecojornalistas do RS, em 2008, na Feira do Livro de Porto Alegre, o livro “Jornalismo Ambiental: desafios e reflexões”. A publicação, com 450 páginas, reúne 32 textos sobre peculiaridades, problemas e possibilidades da cobertura sobre meio ambiente. A obra foi organizada pelos jornalistas e pesquisadores Ilza Girardi e Reges Schwaab, integrantes da diretoria do NEJ/RS e sai pela Editora Dom Quixote, de Porto Alegre.

Segundo Ilza Girardi, o livro representa a concretização de um esforço coletivo para colocar à disposição de jornalistas e estudantes da área, um material que contribuirá com a qualificação profissional e o aprofundamento das discussões sobre os problemas ambientais. “O nosso papel, enquanto jornalistas, é o de levantar temas, questionar problemas que afetam a qualidade de vida de todos os seres e também mostrar bons exemplos”, argumenta.

Ao debater a complexidade da abordagem da problemática socioambiental, o conjunto de artigos busca ampliar a compreensão da natureza do Jornalismo Ambiental e do próprio fazer jornalístico: os pressupostos éticos, o caráter público da informação, a cidadania e a necessidade de uma cobertura qualificada, superando uma visão fragmentária da realidade.

Fruto dos debates do II Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, promovido pelo Núcleo em 2007, o livro está dividido em duas partes. Na primeira, estão textos de jornalistas brasileiros e de outros países da América Latina, além de pesquisadores da área, que foram conferencistas no evento: Adalberto Marcondes, André Trigueiro, Beatriz Dornelles Gabriela Michelotti, Vilmar Berna e Wilson da Costa Bueno, do Brasil, além de Adelfa Fiallo (Cuba), Hernán Sorhuet Gelos (Uruguai), Miguel Angel de Alba (México), Sharon Pringle (Panamá) e Victor Bacchetta (Uruguai).

Na segunda parte, o livro traz textos de pesquisadores de diferentes etapas de formação acadêmica, além de professores universitários, apresentados nas sessões de trabalhos científicos do Congresso: Ana Paula Lückman; Bianca Costa; Carine Massierer; Clarissa Baumont, Ilza Girardi e Rosa Nívea Pedroso; Carlos Fioravanti; Cláudia de Moraes e Aline Corrêa; Cristiane Pereira; Dinair Teixeira; Edileuson Almeida; Efraim Neto; Eloísa Loose; Fabrício Ângelo e Cacilda Carvalho; Jane Mazzarino; Katarini Miguel; Lara Ely; Laura Martirani e Helena Gomes; Lourdes Silva e Nilzélia Oliveira; Maria Daniela Vianna e Wanda Günther; Maria Morais; Mariana Campos; Patrícia Kolling e Everton Maciel.

Para Ilza Girardi, que também é a atual coordenadora do NEJ/RS, o livro “Jornalismo Ambiental: desafios e reflexões” é uma conquista marcante dentro dos 18 anos da entidade. A contribuição gentil dos autores foi fundamental, segundo ela, para concretizar a proposta. “Esperamos continuar com as nossas diversas frentes de atuação: os debates das Terças Ecológicas, o portal EcoAgência, o programa de rádio Sintonia da Terra, além das publicações, palestras e cursos que temos oferecido. O que move o NEJ/RS é a crença de que através deste trabalho avançamos na construção de uma vida sustentável, que significa um mundo com justição social, paz, solidariedade e respeito a todos os seres”, completa.

Jornalismo Ambiental: desafios e reflexões. Ilza Girardi e Reges Schwaab (orgs.). Editora Dom Quixote e Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul
Páginas: 450 págs
ISBN: 978-85-99988-15-2


Veja também o site http://www.ecoagencia.com.br/

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Jornalismo Ambiental - Evolução e perspectivas

Imprensa e Pantanal

Laboratório Ambiental de Jornalismo
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Campo Grande, 29 a 31 de outubro de 1997


Jornalismo Ambiental - Evolução e Perspectivas

por Roberto Villar*

 O meio ambiente é o centro de uma disputa de poder neste final de século. Os empresários estão conseguindo roubar a bandeira dos movimentos ecológicos. As palavras de ordem agora são custo ambiental e parceria. As empresas não só descobriram que podem ganhar muito dinheiro fazendo o que os ecologistas vem dizendo há mais de duas décadas, como perceberam que evitar o desperdício e implantar tecnologias limpas é uma questão de sobrevivência no mercado globalizado.

 O "ambientalismo empresarial" ganha força. Publicamente, as grandes indústrias fazem campanhas publicitárias e plantam notícias na imprensa. Veladamente, exercem um forte lobby para afrouxar a legislação ambiental e desacreditar as ONGs. Nos discursos, defendem a liberdade de imprensa e a democracia. Nos bastidores, são soldados de uma conspiração do silêncio - a censura empresarial - criada para que a população receba apenas a versão dos poluidores. Este é o pano de fundo para entender o jornalismo ambiental dos anos 90.

 O jornalismo ambiental tem características diversas em cada região do Brasil. A existência e a própria qualidade das notícias publicadas estão diretamente relacionadas à mobilização da sociedade em torno do tema. As Organizações Não-Governamentais enfrentam dificuldades para publicar os seus pontos de vista em todo o país, mas onde a atuação das entidades é fraca, o noticiário sobre problemas ecológicos é quase inexistente.

 Os grandes grupos de comunicação do país sabem que não podem ignorar a questão ambiental, meramente por uma questão de mercado, e por isso fazem pequenas concessões, abrindo janelas periféricas aqui e ali. No entanto, mantêm o jornalismo ambiental com um status marginal. E o jornalista que se especializa é rapidamente tachado de ecochato ou ecologista, minando a credibilidade do profissional. Principalmente quando começa a discutir com profundidade as questões ecológicas e denunciar grandes empresas poluidoras.

 A imprensa brasileira dificilmente trata dos problemas ambientais com profundidade na pauta das discussões públicas. As exceções são fruto de um esforço pessoal e isolado. O meio ambiente é manchete e ganha espaço e tempo na cobertura diária quando acontecem desastres, ou quando os assuntos repercutem no exterior, como a morte de um ecologista famoso, as queimadas e os desmatamentos na Amazônia e na Mata Atlântica. A pauta ambiental ainda vem das agências internacionais.

 A grande imprensa não desvenda a promiscuidade que existe entre os órgãos ambientais e as indústrias. Também evita debater temas brasileiros, como a falta de saneamento no país.
A Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental reuniu os maiores especialistas em saneamento ambiental de 14 a 19 de setembro em Foz do Iguaçu. Os jornalistas não apareceram. Dias depois, o governador do Paraná, Jaime Lerner, promoveu os Jogos da Natureza e surgiram centenas de repórteres para registrar o espetáculo.

 Diante deste novo "ambientalismo empresarial", uma aliança entre jornalistas, cientistas e ecologistas é de vital importância para a democracia. Um cidadão só tem liberdade de escolha se ele conhece as opções existentes. Se só existe uma versão, não há o que escolher.
O cidadão não tem como confrontar as informações. Por isso, os repórteres tem que ouvir o que os pesquisadores e ambientalistas têm a dizer. Por outro lado, não podem se transformar em meros assessores de imprensa de entidades ecológicas ou instituições de ensino. É preciso bom senso e equilíbrio. Lembrando sempre que o poder da imprensa é determinar os assuntos que estarão na agenda das discussões públicas da sociedade.

 Hoje, os empresários têm mais acesso à imprensa. Poucas ONGs já aprenderam a disputar tempo e espaço na mídia. Algumas exceções são a Greenpeace e a Fundação SOS Mata Atlântica. A maioria das entidades ambientalistas não conhece o funcionamento dos veículos de comunicação, o processo de produção das notícias. Por isso, melhorar a qualidade do jornalismo ambiental não passa apenas pela educação ambiental dos jornalistas, mas também pela educação jornalística dos ecologistas.

 Além da censura empresarial, existe a omissão dos jornalistas nas redações. Quanto mais especializado, mais o repórter ou editor começa a questionar a sua concepção de mundo e o seu próprio estilo de vida. Como o jornalista pode falar de harmonia entre os homens e a natureza se não sabe o que é a harmonia? Como poderá estimular a solidariedade tendo um espírito individualista? Se é verdade que a destruição da natureza inicia no espírito dos homens, os jornalistas terão que mudar o seu próprio estilo de vida no processo de aprendizado do jornalismo ambiental.

 O jornalismo ambiental é uma especialização do jornalismo, com todas as regras gerais da profissão. A reportagem de meio ambiente tem que ser "vendida" como qualquer outra matéria. Deve ser novidade e de interesse público. A linguagem tem que ser simples. "O estilo é a arte de dizer o máximo com o mínimo de palavras", dizia Jean Cocteau. O repórter tem que oferecer boas manchetes para disputar espaço nas redações, e se diferenciar com um trabalho de qualidade. Quando fizer denúncias, deve ter provas suficientes para enfrentar a reação dos poluidores, e a pressão dos editores.

 Alguém já disse que a reportagem é a arte de reconstituir os fatos, com emoção. E com opinião, eu acrescentaria. Sem uma opinião própria fundamentada sobre os fatos não há como escrever uma boa reportagem. A neutralidade da imprensa é uma bobagem que inventaram para enganar os leigos. O que existe, e deve ser perseguida, é a honestidade. Quando escolhemos uma pauta, a abertura de uma matéria ou um título, estamos sendo parciais, vendo o mundo com os nossos olhos. Afinal de contas somos seres humanos, e não máquinas de calcular.

 Uma tendência que surge cada vez com mais força no jornalismo ambiental é a divulgação de histórias humanas e bons exemplos. Menos catástrofes e previsões científicas assustadoras, e mais dicas práticas para o dia-a-dia das pessoas. No Brasil, quem segue este estilo é o Repórter Eco, da TV Cultura de São Paulo, programa que conseguiu sobreviver à ressaca pós-Rio 92 e vem mantendo um bom índice de audiência em todo o país.

 Este tipo de reportagem educativa é de grande importância, para mostrar que é possível viver em harmonia com a natureza. No entanto, o jornalismo ambiental não pode se limitar apenas a bons exemplos. O repórter especializado tem que ser também um cão de guarda, e denunciar os desmandos. Uma matéria retrata a realidade. Se a realidade é trágica e catastrófica, a imprensa não pode criar um mundo fictício em nome da educação ambiental do público. Deve procurar, porém, contextualizar o homem dentro da natureza, e sempre apresentar os problemas com as soluções ambientalmente sustentáveis.

 O jornalismo ambiental não se limita à grande imprensa. Os jornais de bairro, rádios e televisões comunitárias também são alternativas importantes, pois permitem um envolvimento muito mais direto com o público. A pauta dos veículos reflete mais as necessidades da região. O principal jornal de bairro de Porto Alegre - Oi! Menino Deus - conseguiu fazer, entre 1995 e 1996, reportagens investigativas na área ambiental que lhe renderam diversos prêmios estaduais, vencendo até os grandes jornais gaúchos.

Breve história do jornalismo ambiental

O jornalismo ambiental é uma tendência irreversível na imprensa mundial. Depois da Rio 92, houve um retrocesso nos Estados Unidos e no Brasil. Por outro lado, cresce de importância no Leste Europeu. Apesar da diminuição de tempo e espaço em alguns países, entidades de jornalistas especializados em meio ambiente trabalham na formação de profissionais, melhorando a qualidade das matérias. A primeira organização surgiu na França, ainda na década de 60.

Em 1968, aconteceu em Paris a Conferência da Biosfera. Na mesma época, surgiu na França a primeira entidade de jornalismo ambiental. No mesmo ano, era preso no Brasil - pela Operação Bandeirantes - o jovem repórter Randau Marques, primeiro jornalista brasileiro a se especializar em meio ambiente. Randau foi considerado subversivo na época porque escreveu num jornal da cidade paulista de Franca (berço dos curtumes) reportagens sobre a contaminação de gráficos e sapateiros com chumbo, e já questionava a expressão "defensivos", mostrando que os agrotóxicos eram responsáveis pela mortandade de peixes e pela intoxicação de agricultores. Depois, Randau se especializou em assuntos urbanos e questões ambientais no Jornal da Tarde.

Pelo diário do Grupo Estado, Randau cobriu na capital gaúcha a primeira polêmica ambiental envolvendo uma grande indústria. O fechamento da fábrica de celulose Borregaard, do dia seis de dezembro de 1973 até 14 de março de 1974, atraiu a atenção de jornalistas de outros estados e do exterior. A indústria, hoje chamada de Riocell, fica nas margens do Guaíba, na frente de Porto Alegre. A poluição uniu o embrionário, mas aguerrido, movimento ecológico gaúcho. No entanto, não é a imagem de uma chaminé que representa a época. Foi a famosa foto do estudante universitário Carlos Dayrel sentado numa acácia, tirada no dia 25 de fevereiro de 1975. Ele ficou horas em cima da árvore que seria cortada pela Prefeitura para a construção de um viaduto. Os protestos dos ecologistas ganharam ampla cobertura da imprensa, amordaçada pela censura militar.

Foi depois da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972, que as questões ambientais começaram a aparecer com maior freqüência na imprensa internacional. O novo boom ocorreu em meados dos anos 80, com a descoberta do buraco na camada de ozônio e as primeiras hipóteses sobre o impacto das atividades humanas no aumento do aquecimento global. A imprensa brasileira reagiu às preocupações dos países do primeiro mundo, e se voltou para os problemas ambientais da Amazônia.

Em agosto de 1989, foi realizado em São Paulo o Seminário "A Imprensa e o Planeta", promovido pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão e pela Associação Nacional de Jornais. Três meses depois, aconteceu o encontro mais importante para o jornalismo ambiental brasileiro. A Federação Nacional dos Jornalistas realizou no final de novembro, em Brasília, o "Seminário para Jornalistas sobre População e Meio Ambiente". 
Participaram especialistas internacionais, como o francês François Terrason, especialista em planejamento ecológico e agricultura, a norte-americana Diane Lowrie, da Global Tomorrow Coalition, a jornalista argentina Patricia Nirimberk, da Fundação Vida Silvestre, o tcheco Igor Pirek, da Agência de Notícias CTK, o educador Pierre Weil, da Universidade Holística Internacional e especialistas brasileiros, como o repórter Randau Marques, o professor Paulo Nogueira Neto, o físico Luis Pinguelli Rosa, o agrônomo Sebastião Pinheiro e o jornalista Fernando Gabeira.

A união dos jornalistas de meio ambiente

A partir do seminário da Fenaj em Brasília, em 1989, formaram-se núcleos regionais de jornalismo ambiental em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, com o objetivo de criar uma entidade nacional de jornalismo ambiental. No entanto, sobrou apenas o grupo gaúcho. O Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (Nejrs) nasceu dentro do movimento ambientalista, no dia 22 de junho de 1990, num debate com o presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, filósofo Celso Marques, e o presidente da União Protetora do Ambiente Natural, jornalista Carlos Aveline.

Nestes sete anos, o Nejrs trabalhou junto com as principais ONGs gaúchas e também promoveu debates no meio universitário. Em junho de 1991, promoveu o Encontro Jornalismo e Ecologia, junto com a Ufrgs, SBPC, PUCRS e Consulado do Estados Unidos, que viabilizou um debate via-satélite. Entre abril e maio de 1992, realizou junto com a Faculdade de Comunicação da Ufrgs o I Curso de Extensão em Ecologia para Jornalistas, preparatório para a cobertura da Rio 92. O II Curso ocorreu entre novembro e dezembro de 1993, com o objetivo de discutir o papel da imprensa nos desastres ambientais. O resultado foi a publicação do Manual de Emergência para Desastres Ambientais.

O Nejrs foi agraciado pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul com a Medalha do Conservacionista, em junho de 1994. No mesmo ano, recebeu o prêmio Contribuição Especial da Associação Rio-Grandense de Imprensa. O Núcleo é formado por 17 jornalistas, 7 na grande imprensa, mas apenas um fazendo jornalismo ambiental diário. Os integrantes da entidade criaram o jornal Sobrevivência da Agapan e um encarte verde dentro do jornal do Sindicato dos Jornalistas, entidade que cede uma sala ao Nejrs. A próxima publicação do Núcleo será um boletim eletrônico quinzenal distribuído na Internet.

Em nível global, a principal entidade de jornalismo ambiental é a Sociedade de Jornalistas de Meio Ambiente do Estados Unidos. A Society of Environmental Journalists foi criada em 1990 por um dúzia de repórteres premiados, e atualmente tem mais de 1.100 sócios. A entidade se dedica a melhorar a qualidade, precisão e importância das reportagens de meio ambiente.Para isso, promove encontros e debates em todo o país. A Sétima Conferência Nacional da SEJ ocorreu de 3 a 5 de outubro na Universidade do Arizona, em Tucson.

A criação de uma rede mundial de jornalistas de meio ambiente foi uma das decisões do Encontro Internacional de Imprensa, Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizado entre 20 e 24 de maio de 1992 em Belo Horizonte. Batizado de Green Press, este encontro estava na agenda oficial da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92. Mas foi somente em 1993, numa reunião em Dresden, na Alemanha, que foi criada a Federação Internacional de Jornalistas de Meio Ambiente.

Atualmente, a Federação é uma aliança formada por jornalistas de 52 países. O principal objetivo da entidade é ampliar a compreensão pública dos problemas ambientais através do intercâmbio entre os profissionais especializados. Para isso, realiza encontros anuais.

O primeiro congresso ocorreu em Paris, em 1994, no Palácio da Unesco. Em 1995, a reunião aconteceu no campus do Massachusetts Institute of Technology (MIT), na cidade de Cambridge, junto com a reunião anual da Sociedade de Jornalistas de Meio Ambiente dos Estados Unidos. Depois, a Federação se reuniu em Cebu City, na Ásia (1996) e em Budapeste, na Hungria (1997). Em 1998, o Congresso será no Sri Lanka, depois na América Latina, provavelmente na Colombia, e no ano 2000 no Egito.

O Núcleo de Ecojornalistas acredita que é preciso formar uma rede virtual de jornalistas especializados em meio ambiente no Brasil, através da Internet. Desse modo, é possível trocar experiências, pautas e fontes. Também defendemos a aproximação com a Federação Internacional de Jornalistas de Meio Ambiente. Já existem no Alternex duas conferências eletrônicas para facilitar a troca de informações. Uma em inglês - env.journalism - e a outra em português e espanhol - amb.jornalismo. O intercâmbio internacional e a parceria com as ONGs e cientistas com certeza elevará a qualidade do jornalismo ambiental praticado no país.

As entidades


NEJRS - Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul

Rua dos Andradas 1270, 13.o andar, Porto Alegre.
CEP: 90020-008. E-mail: nejrs@ax.apc.org
Coordenador: Juarez Tosi
Telefone: (0xx51) 2254555 (Procuradoria da República/RS)


SEJ - Society of Environmental Journalists

P.O. Box 27280
Philadelphia, Pa. 19118
Presidente: Kevin Carmody, do Chicato Daily Southtown


IFEJ - International Federation of Environmenal Journalists

14, Rue de la Pierre Levée, 75011 - Paris, France
Tel: +330148054607
Fax: +330149239149
Presidente: Jim Detjen - E-mail: detjen@pilot.msu.edu
Secretário: Valentin Thurn

ABRAÇO - Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária

Avenida Presidente Vargas 962, sala 711 - Rio de Janeiro
CEP: 20071-002
Fone/Fax: (021) 2531154
Presidente: Tião Santos

* O autor é Roberto Villar, 29 anos, responsável pelos programas Gaúcha Ecologia, da Rádio Gaúcha, e Ecologia em Destaque, da Rádio CBN de Porto Alegre. Sócio do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul. Cobriu pela Gaúcha duas conferências da ONU, a Cúpula da Terra, realizada em 1992 no Rio de Janeiro, e a Habitat II, em Istambul no ano passado. Já participou de dois Congressos da Federação Internacional de Jornalistas de Meio Ambiente, em Paris (1994) e Cambridge/USA (1995). Em maio de 1995, passou duas semanas na Alemanha, à convite do governo alemão, conhecendo projetos ambientais. Já recebeu mais de dez prêmios regionais de jornalismo, entre eles o Primeiro Lugar em Reportagem Geral do Prêmio da Associação Rio-Grandense de Imprensa, edição de 1996, com reportagem sobre a maior mortandade de peixes registrada no Guaíba, publicada no jornal de bairro Oi! Menino Deus