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terça-feira, 28 de julho de 2009

O que é ciência afinal?


Durante muito tempo o homem iniciou uma jornada em busca do conhecimento para buscar possíveis respostas a certas questões referentes a problemas do seu dia-a-dia. Algumas destas respostas eram, muitas vezes, explicadas de forma mística à medida que utilizavam a mitologia para explica-las. Quando o homem passou a questionar estas respostas e a buscar explicações mais plausíveis, por meio da razão, excluindo suas emoções e suas crenças religiosas, passou-se a obter respostas mais realistas que, demonstradas, muitas vezes ingenuinamente, se aproximavam mais da realidade das pessoas e por isto, talvez, passaram a ser bem aceitas pela sociedade. Podemos dizer que essa nova forma de pensar do homem foi que criou a possibilidade do surgimento da idéia de ciência e que sua tentativa de explicar os fenômenos, por meio da razão, foi o primeiro passo para se fazer ciência. Mas o que é ciência afinal?

Antes de chegar a alguma concepção sobre o que vem a ser ciência primeiramente analisaremos algumas concepções que possa fornecer dados relevantes para a elaboração de uma definição sobre o que vem a ser ciência. Iniciarei então com a idéia de Rubem Alves que considera a ciência como uma hipertrofia de capacidades que tosos têm e como uma especialização, um refinamento de potenciais comuns a todos na qual sua aprendizagem é um processo de desenvolvimento do senso comum.

A ciência é uma especialização, um refinamento de potenciais comuns a todos. [...] é a hipertrofia de capacidades que todos têm. Isto pode ser bom, mas pode ser muito perigoso. Quanto maior a visão em profundidade, menor a visão em extensão. A tendência da especialização é conhecer cada vez mais de cada vez menos [...] a aprendizagem da ciência é um processo de desenvolvimento progressivo do senso comum. Só podemos ensinar e aprender partindo do senso comum de que o aprendiz dispõe (Rubem: 1981, p. 12).

Entende-se por senso comum o conhecimento adquirido pelas pessoas através do convívio social com outros indivíduos (o senso comum advêm das múltiplas relações entre os familiares, os amigos, na rua e até mesmo na escola) de onde é extraído o conhecimento científico conforme expressa a citação abaixo.

Senso comum é aquilo que não é ciência [...] a ciência é uma metamorfose do senso comum. Sem ele, ela não pode existir. (Rubem: 1981, p. 14)

A diferença entre o senso comum e o conhecimento científico é que o senso comum é formado por sentimentos, desejos e misticismo já, o conhecimento científico, é formado através da razão e de forma metodologicamente rigorosa procurando excluir, do seu contexto, as emoções, as crenças religiosas e os desejos do homem. Isto quer dizer que há uma relação entre estes conhecimentos, pois se pode observar uma continuidade entre o pensamento científico e o senso comum.

Estou tentando mostrar que existe uma continuidade entre o pensamento científico e o senso comum [...].(Rubem: 1981, p. 17).

A comunidade científica pode ter criado a expressão "senso comum" , como uma forma de diferenciar o cientista do cidadão comum, causando uma certa polêmica, mas o que nos interessa é que, atualmente, essa mesma comunidade científica, procura enveredar os caminhos a busca do conhecimento científico para possibilitar um maior avanço da ciência. Isto porque, segundo eles, devemos aprender a inventar soluções novas abrindo portas até então fechadas e a descobrir novas trilhas, devemos procurar a aprender maneiras novas de sobrevivência.

Pessoas que aprendem a inventar soluções novas são aquelas que abrem portas até então fechadas e descobrem novas trilhas. A questão não é saber uma solução já dada, mas ser capaz de aprender maneiras novas de sobreviver (Rubem: 1981, p. 23).

Durante toda a história da humanidade o homem sempre se preocupou em organizar as coisas, seja no trabalho, em casa ou em qualquer outra situação para que se possa fazer as coisas com mais praticidade e qualidade a fim de facilitar nossa vida no dia-a-dia. O mesmo ocorre na ciência, pois os cientistas quando anunciam uma teoria, ele procura mostrar como se processa a ordem das coisas para que se possa formar um modelo representativo da realidade. Esse modelo tem por objetivo a busca de um padrão que possibilite fazer previsões. Isto quer dizer que o homem, através da ciência, busca uma ordem das coisas e que;

A ordem é a primeira inspiração da ciência. Quando um cientista anuncia uma lei ou uma teoria, ela está contando como se processa a ordem, está oferecendo um modelo da ordem. Agora ele poderá prever como a natureza vai se comportar no futuro. É isto que significa testar uma teoria: ver se, no futuro, ela se comporta como o modelo previu. [...] as coisas são nos céus como são no homem. Tudo é um cosmos, ordem [...] (Rubem: 1981, p.27).

Para buscar essa ordem tem-se que observar e criar uma lógica, imaginar uma possível solução para um problema norteador, pois embora a observação ofereça dados para a construção de uma ordem é a imaginação que lapida, dar forma, a uma matéria bruta e uniforme. Analogicamente podemos dizer que;

Sem ordem não há problema a ser resolvido. Porque o problema é exatamente construir uma ordem ainda invisível de uma desordem visível e imediata. [...] a coisa a que os modelos se referem não é dada à observação direta. Eles se referem a uma ordem oculta, invisível. Esta é a razão porque, muito embora a observação ofereça pistas para a sua construção, a imaginação é o artista que dá forma a esta matéria bruta e uniforme. (Rubem: 1981, pp. 28-29).

A busca dessa ordem só pode ocorrer através da inteligência partindo do ponto que se quer chegar para evitarmos erros e tentativas inúteis. Pois,

A inteligência segue o caminho inverso da ação. E é somente isso que a torna inteligência. Começando de onde se deseja chegar, evita-se o comportamento errático e desordenado a que se dá o nome de "tentativa e erro". (Rubem, Alves: 1981, p. 33).

É estranho falar em começar uma busca partindo do final, daquilo que se quer alcançar, principalmente quando se está procurando algo invisível "a ordem". Mas é isso que os cientistas fazem para poderem comprovar ou negar suas teorias, buscam o invisível.

Nós olhamos não para as coisas que são vistas, mas para as coisas que não são vistas. Porque as coisas que são vistas são transitórias, mas as coisas que não são vistas são eternas [...] a ciência se inicia com problemas [...] seu objetivo é descobrir uma ordem invisível que transforme os fatos de enigma em conhecimento. [...] os cientistas só buscam os fatos que são decisivos para a confirmação ou negação de suas teorias (Rubem, Alves: 1981, pp. 39-42).

Partindo da concepção que os cientistas só buscam fatos decisivos para a confirmação ou negação de suas teorias também é necessário saber que só os resultados destas teorias é que permite julgar se a elaboração dos conhecimentos produzidos segue ou não a via segura da ciência como ocorreu com a lógica, a matemática e a física, por exemplo. Pois, o que há de razão nas ciências é algo que é conhecido como a priori. É desse algo que possibilita a razão se referir ao seu objeto de estudo através da determinação deste e do seu conceito ou então pela sua realização. Esse termo a priori corresponde a aquele conhecimento que já possuímos sem tê-lo visto e representado, pois ele existe apenas na mente, abstratamente que, torna possível, antes da realização de um experimento, já existir um plano, uma razão de realizá-lo e, conseqüentemente, uma teoria.

Compreenderam que a razão só entende aquilo que produz segundo os seus próprios planos; que ela tem que tomar a dianteira com princípios, que determinam nos seus juízos segundo leis constantes e deve forçar a natureza a responder às suas interrogações em vez de se deixar guiar por esta; de outro modo, as observações feitas ao acaso, realizadas sem plano prévio, não se ordenam segundo a lei necessária, que a razão procura e de que necessita. (Kant: 1997, p.18).

Isto torna possível dizer que talvez haja uma certa dependência da observação em relação à teoria. Pois como é possível elaborarmos todo um procedimento para prepararmos um laboratório experimental e fazermos uma experiência sem que tenhamos uma idéia do que queremos investigar, por que investigar ou para que investigar? Montar um laboratório é um ato instintivo separado do pensamento, da lógica e da razão? Um indutivista ingênuo acredita que a observação cuidadosa e sem preconceitos produz uma base segura da qual pode ser obtido verdades ou conhecimento científico.

Existem duas suposições importantes na posição indutivista ingênua em relação à observação. Uma é que a ciência começa com a observação. A outra é que a observação produz uma base segura da qual o conhecimento pode ser derivado. (Chalmers: 1929, p. 46).

Mas há quem discorde desta concepção e mostre que estes indutivistas estão equivocados, pois de acordo com a explicação indutivista da ciência, a base segura sobre a qual as leis e teorias que constituem a ciência se edificam é constituída de proposições de observação públicas e não de experiências subjetivas, privadas, de observadores individuais. A explicação indutivista requer a derivação de afirmações universais a partir de afirmações singulares, por indução. Pode-se dizer que experiências perceptivas são acessíveis a um observador, mas proposições de observação não o são. É notório que as proposições de observação como formadora da base da ciência pode ver alguma teoria que precede todas as proposições de observação e que elas são sujeitas a falhas quanto as teorias que pressupõe.

Uma vez que a atenção é focada sobre as proposições de observação como formando a base segura alegada para a ciência pode-se ver que, contrariamente a reivindicação do indutivista, algum tipo de teoria deve preceder todas as proposições de observação e elas são tão sujeitas a falhas quanto as teorias que pressupõem. (Chalmers: 1929, p. 53).

Assim, o relato indutivista ingênuo da ciência foi solapado pelo argumento de que as teorias devem preceder as proposições de observação, então é falso afirmar que a ciência começa pela observação. As proposições de observação são tão sujeitas à falhas quanto às teorias que elas pressupõem e, portanto, não formam uma base segura para a construção de leis e teorias científicas. Isto quer dizer que;

A ciência não começa com proposições de observação porque algum tipo de teoria as precede; as proposições de observação não constituem uma base firme na qual o conhecimento científico possa ser fundamentado porque são sujeitas à falhas. Contudo, não quero afirmar que as proposições de observação não deveriam ter papel algum na ciência. Não estou recomendando que todas elas devam ser descartadas por serem falíveis. Estou simplesmente argumentando que o papel que os indutivistas atribuem às proposições de observação na ciência é incorreto. (Chalmers: 1929, p. 58).

Diante do que foi exposto até aqui posso afirmar que a observação depende sim da teoria, pois;

As teorias podem ser, e geralmente são, concebidas antes de serem feitas às observações necessárias para testa-las. (Chalmers: 1929, pp. 60-61)

Na concepção dos falsificacionistas a observação é orientada pela teoria e a pressupõe. Eles abandonam qualquer afirmação que fazem supor que as teorias podem ser estabelecidas como verdadeiras ou como provavelmente verdadeiras a luz da evidência observativa. Para eles as teorias propostas devem ser testadas por observação e por experimentação. Teorias que não passarem nos testes devem ser abandonadas e substituídas por outras.

Uma vez propostas, as teorias especulativas devem rigorosa e inexoravelmente testadas por observação e experimento. Teorias que não resistem a testes de observação e experimentais devem ser eliminadas e substituídas por conjecturas especulativas ulteriores. A ciência progride por tentativa e erro, por conjecturas e refutações. Apenas as teorias mais adaptadas sobrevivem. Embora nunca se possa dizer legitimamente de uma teoria que ela é verdadeira, pode-se confiantemente dizer que ela é melhor disponível, que é melhor do que qualquer coisa que veio antes (Chalmers: 1929, p. 64).

A visão falsificacionista vê a ciência como um conjunto de hipóteses que são experimentalmente propostas com a finalidade de descrever ou explicar o comportamento de algum aspecto do mundo ou do universo. Para eles toda hipótese ou conjunto de hipóteses deve satisfazer para ter garantido o status de lei ou teoria científica. Para fazer parte da ciência uma teoria deve ser falsificável.

O falsificacionista exige que as hipóteses científicas sejam falsificáveis [...] Uma lei ou teoria científica idealmente nos daria alguma informação sobre como o mundo de fato se comporta, eliminando assim as maneiras pelas quais ele poderia (é lógico) possivelmente se comportar [...] (Chalmers: 1929 p. 67).

Até aqui vimos os relatos tradicionais da ciência, do indutivismo e do falsificacionismo que, ao contrário da teoria da ciência deKuhn, que fundou o Relativismo, não realizaram uma tentativa de fornecer uma teoria mais corrente com uma situação histórica. Kuhn faz essa tentativa dando ênfase ao caráter revolucionário do progresso científico, em que uma revolução científica implica no abandono de uma estrutura teórica (paradigma) e sua substituição por outra diferente e incompatível. Ele acreditava que;

Uma ciência madura é governada por um único paradigma. O paradigma determina os padrões para o trabalho legítimo dentro da ciência que governa. Ele coordena e dirige a atividade de "solução de charadas" do grupo de cientistas normais que trabalham em seu interior. A existência de um paradigma capaz de sustentar uma tradição de ciência normal é a característica que distingue a ciência da não-ciência (Chalmers: 1929 p. 125).

Diante de tudo que foi exposto podemos chegar a uma noção do que vem a ser ciência através de algumas concepções aqui abordadas sobre a produção do conhecimento científico. Assim, posso dizer que "ciência" é à busca de ordem através de paradigmas que possibilite conhecer como o mundo se comporta em busca de soluções, por meio da razão, de questões de enigmas que possam ser transformadas em conhecimentos que possibilite novas maneiras de sobrevivência do homem.

Fonte: Webartigos.com

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Jornalismo Ambiental

O Jornalismo Ambiental, com um desenvolvimento marcante nos últimos anos, em função da inclusão da Ecologia como pauta diária nos veículos de informação, compreende a divulgação de fatos, processos, estudos e pesquisas associadas à preservação do meio ambiente e da diversidade.


No Brasil, ele se manifesta nos veículos tradicionais (jornais e revistas de circulação nacional), mas também a partir de iniciativas relevantes, como o premiado Jornal do Meio Ambiente, de Vilmar Berna, e do Terraamérica, comandado, no Brasil, pela competente equipe da Envolverde.


Inúmeras ONGs ambientalistas também o praticam e pode se identificar, nesta modalidade de jornalismo, o caráter positivo da militância, isto é, quando identificado com a causa ambiental (e deveria ser sempre assim), o jornalismo ambiental é engajado, comprometido, o que não significa que deva forjar os fatos ou manipular a verdade para fazer valer a sua opinião. É importante não deixar de mencionar o Greenpeace, a WWF e a SOS Mata Atlântica, como representantes deste universo e, a partir delas, reverenciar todas as outras entidades que vêm fazendo, com competência e entusiasmo, este trabalho.


Recentemente, polêmicas travadas em virtude de alguns temas candentes, como os transgênicos, a biopirataria como ameaça à diversidade e à soberania nacionais, o aquecimento global (efeito estufa e subtemas equivalentes) e a segurança alimentar (que o diga a vaca louca!) trouxeram novo impulso ao Jornalismo Ambiental.


O Jornalismo Ambiental e o Jornalismo em Agribusiness tem áreas de intersecção importantes, mas não se confundem: o primeiro refere-se também a temas que, em princípio, nada tem a ver com o agronegócio, como a questão do lixo urbano, a poluição industrial, os edifícios doentes e assim por diante. Quando recorre a temas, como transgênicos, agrotóxicos, desmatamento, segurança alimentar, evidentemente as diferenças, entre um e outro, são menos perceptíveis, embora o Jornalismo Ambiental veja estas questões sempre sob uma perspectiva crítica, o que pode não ocorrer no Jornalismo em Agribusiness, se comprometido com os interesses das grandes empresas.


O Jornalismo Ambiental tem uma atuação fundamental na Web e podemos destacar, também, o grupo de colegas atuantes no ECOM - Ecologia & Comunicação, a equipe da Embrapa Meio Ambiente, com sua atuação e seu informativo sempre atualizado, e inúmeros colunistas (Jornal do Brasil, O Povo/CE etc). 


Referência obrigatória é o grupo de discussão sobre jornalismo ambiental, integrado por mais de duas centenas de profissionais, pesquisadores e estudiosos da área, que se caracteriza pelo dinamismo e pela relevância das informações trocadas na rede (jorn-ambiente@yahoogrupos.com.br). Outra fonte fundamental é a Rede dos Jornalistas Ambientais Brasileiros (www.jornalismoambiental.jor.br)



domingo, 1 de fevereiro de 2009

Jornalismo Científico e democratização do conhecimento

Jornalismo Científico: teoria e prática


A Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) completou em 2007 seus 30 anos de fundação, realizando, em São Paulo, o IX Congresso Brasileiro de Jornalismo Científico. O evento reuniu experiências brasileiras de divulgação científica em mesas-redondas e apresentação de trabalhos (cerca de 40 no total), compondo um mosaico plural do ensino, da pesquisa e da prática do Jornalismo Científico brasileiro. Apesar do apagão aéreo e de outras dificuldades vivenciadas pelos colegas da área (preço elevado de hotéis e de passagens, não liberação pelas chefias etc), cerca de 150 congressistas estiveram presentes.

O Jornalismo Científico continua ativo no País, apesar dos inúmeros desafios e dos obstáculos que ainda necessita enfrentar.


Simplificadamente, o Jornalismo Científico compreende a veiculação, segundo os padrões jornalísticos, de informações sobre ciência, tecnologia e inovação e se caracteriza por desempenhar inúmeras funções.

Em primeiro lugar, ele cumpre o papel, absolutamente indispensável num país onde o ensino formal de ciências é precário, de contribuir para o processo de alfabetização científica, permitindo aos cidadãos tomar contato com o que acontece no universo da ciência e da tecnologia. Trata-se de uma função eminentemente pedagógica a ser cumprida pela mídia, complementar ao da educação, e que atinge não apenas aqueles que já deixaram a escola, mas sobretudo os que estão dela excluídos por inúmeros motivos.

Em segundo lugar, esta divulgação pelos meios de comunicação de massa promove a democratização do conhecimento científico, ampliando o debate sobre temas relevantes de ciência e tecnologia. Se realizada com compromisso e espírito público, ela convoca os brasileiros para participar do processo de tomada de decisões e retira de uma elite (que normalmente se beneficia das benesses do progresso técnico) o poder exclusivo de decidir onde, quanto e como investir em ciência e tecnologia. Esta função se reveste de caráter político (não partidário) no seu sentido mais amplo porque favorece a explicitação dos interesses envolvidos no financiamento, produção e aplicação da ciência e da tecnologia.

Finalmente, o Jornalismo Científico abre oportunidade para que os centros produtores e financiadores de ciência e tecnologia (e os pesquisadores em particular) possam prestar contas à sociedade dos investimentos realizados em pesquisa e desenvolvimento, essenciais para a soberania de uma nação.

Tradicionalmente, a literatura em Jornalismo Científico (que não é generosa no Brasil) concentra-se, prioritariamente, em discutir a relação entre cientistas/pesquisadores e jornalistas/divulgadores de ciência ou explora a dificuldade de adaptação do discurso científico, geralmente hermético, ao universo da maioria dos cidadãos, relegando a segundo plano outras temáticas não menos importantes.

É evidente que ainda existem incompreensões (apesar de termos avançado muito nos últimos anos) entre quem faz e quem divulga ciência no Brasil, especialmente porque estamos nos referindo a dois sistemas de produção bastante distintos e com características peculiares (a ciência e a tecnologia e o Jornalismo). Estas incompreensões diminuem sensivelmente (a experiência nos revela isso) quando cada um dos lados passa a ter uma visão mais lúcida do outro e, particularmente, quando pesquisador e jornalista estão identificados com os mesmos objetivos: a alfabetização científica e a democratização do conhecimento, por exemplo.

É forçoso reconhecer também que não é tarefa fácil trazer temas complexos de ciência e e tecnologia para o dia-a-dia das pessoas, especialmente quando elas não estão familiarizadas com os conceitos básicos da área, mas isso é possível com esforço, talento e competência. É sobretudo realizável quando jornalistas/divulgadores e cientistas/pesquisadores trabalham em parceria e estão empenhados em cumprir adequadamente este papel.

A literatura não tem, no entanto, dado conta de uma realidade que merece ser sempre considerada na produção e divulgação da ciência e da tecnologia: a conjugação de interesses de toda ordem (políticos, econômicos, militares, empresariais etc) que, gradativamente, constrangem e penalizam a qualidade destes dois processos (produção e divulgação). Basta lembrar que o maior esforço de pesquisa e de desenvolvimento está hoje a serviço de interesses militares e que o investimento em determinadas áreas (saúde, biotecnologia etc) tem por fim, prioritariamente, favorecer grandes corporações (ou seja o lucro) e não os cidadãos de maneira geral.

A divulgação científica tem estado cada vez mais cerceada pelos contratos de exclusividade (sigilo de informações) firmados entre universidades e institutos de pesquisa com empresas privadas e públicas. Pode-se dizer, sem medo de cometer injustiças, que a ciência e a tecnologia de ponta estão a mercê do capital e não do interesse público, apesar do discurso de governos e empresas que pregam a cidadania, o compromisso com a sociedade, mas estão apenas interessados em atender os seus acionistas.

A ciência e a tecnologia são mercadorias valiosas e não estão necessariamente, como sempre se buscou acentuar nos colégios, a serviço da humanidade porque, muitas vezes, têm a ver mais com os objetivos do complexo militar, industrial, financeiro etc. É certo que, pelo menos grande parte da pesquisa brasileira, realizada por investigadores individuais ou em pequenas equipes nas universidades e centros de pesquisa, ainda assume uma perspectiva positiva, desvinculada de outros interesses extra-científicos, mas o cenário vai pouco a pouco se modificando com o aumento da complexidade dos projetos e a necessidade de recursos para sua realização.

É preciso, em alguns casos, tomar cuidado com algumas fontes suspeitas que, travestidas de titulação acadêmica e respaldadas em prestígio derivado dos seus trabalhos de pesquisa, não passam de porta-vozes dos grandes interesses comerciais. Será sempre interessante verificar quem anda financiando estes "PHDs com bocas alugadas" que comparecem às redações, apresentados por agências de comunicação, para veicular pretensas notícias científicas que nada mais são do que propaganda de determinadas empresas ou setores. Quem se propõe a fazer isso (seguir o dinheiro - "follow the money", como dizem os americanos) descobrirá atrás do noticiário sobre transgênicos (cuidado com o CIB - Conselho de Informações sobre Biotecnologia!) a mão das multinacionais que andam promovendo o monopólio das sementes e vociferando contra a biodiversidade.

Nem sempre é saudável acreditar em empresas que têm santo no nome ou que proclamam os seus "embaixadores ambientais". Há uma ciência e uma tecnologia comprometidas atrás dos releases e do noticiário que se originam de algumas fontes. Uma pista: se uma empresa agroquímica, mineradora ou de celulose incorpora o discurso da sustentabilidade em sua divulgação, mesmo apoiada no depoimento de um especialista, não caia no logro: tem, como diz o ditado, gato na tuba, ou seja, estão querendo passar a perna em todos nós. Não confunda ciência com marketing verde porque nem sempre "a química está a serviço da vida" e fabricar cigarro será sempre produzir droga, independente dos prêmios recebidos pelo "relatório social" da indústria tabagista.

No mundo inteiro - e não apenas no Brasil - as empresas estão cada vez mais próximas das universidades e centros de pesquisa e, ressalvadas as exceções, muitas acabam, pela fragilidade das nossas instituições de ensino e pesquisa, se apropriando do conhecimento nelas desenvolvido com intenções meramente comerciais. Grupos de pesquisa, formados com dinheiro público, se transferem para empresas privadas e continuam desenvolvendo projetos relevantes que beneficiam mais as organizações que os financiam do que a sociedade. Quem se lembra da relação entre a Novartis , uma poderosa indústria farmacêutica, e um instituto voltado para a pesquisa da biodiversidade na Amazônia (consulte com a palavra-chave "Projeto BioAmazônia Novartis" no Google e ficará surpreso com o que vai encontrar por lá), pode imaginar o que tende a ocorrer, se não houver uma vigilância permanente sobre essa interação nem sempre transparente e ética entre empresas e centros geradores de ciência e tecnologia.

A ciência e a tecnologia precisam estar comprometidas com o interesse dos cidadãos que as financiam e, especialmente no Brasil, as instituições de ensino e pesquisa que são subsidiadas pela sociedade têm a obrigação de prestar contas dos recursos investidos em ciência e tecnologia. Merecem menção sob este aspecto entidades como a Fapesp (referência internacional no apoio a projetos de pesquisa mas também em divulgação científica) e alguns institutos e empresas de pesquisa que promovem tanto a produção como a divulgação de ciência e tecnologia (a Fiocruz e a Embrapa são exemplos modelares). Outras entidades estaduais (Fapemig, Faperj etc) também merecem ser lembradas pelo mesmo trabalho, especialmente porque, pouco a pouco, buscam dar visibilidade aos projetos que financiam, cumprindo a função primordial de prestar contas dos investimentos realizados com recursos públicos.

O Jornalismo Científico ganhou novo impulso com a internet e multiplicam-se felizmente as publicações na internet (a revista ComCiência, do Labjor/Unicamp é excelente!), bem como são dignas de elogios algumas publicações tradicionais de divulgação e Jornalismo Científico, como Ciência Hoje, Revista Pesquisa Fapesp, Scientific American Brasil e mesmo as de maior tiragem, como Galileu e Superinteressante. É preciso ressaltar que esta última tende, infelizmente neste momento, a se desviar um pouco desta área, seduzida pelo apelo comercial do esoterismo, de temas sensacionais e/ou sensacionalistas e do espírito de almanaque, embora cumpra um papel fundamental junto aos jovens, seu principal público-alvo.

A divulgação científica também tem sido estimulada pela iniciativa de editoras e autores (ainda tímida no Brasil) de publicar livros sobre temas de ciência para os nossos jovens e as nossas crianças. É imperioso destacar, neste momento, o trabalho realizado pela Oficina de Textos, uma editora paulista que tem publicado obras de divulgação sobre temas de ciência atuais e relevantes, premiando a nossa juventude.

Não se pode deixar de mencionar o trabalho competente e pioneiro coordenado pelo prof. Ildeu de Castro Moreira , no MCT, com a realização de pesquisas (lembremos, por exemplo, a investigação recente sobre a percepção da ciência e da tecnologia pelo brasileiro), apoio a projetos e contribuição efetiva ao aumento da massa crítica na área da divulgação científica no Brasil.

Finalmente, é preciso reconhecer o apoio que a Universidade Metodista de São Paulo - UMESP tem dado à pesquisa na área, especialmente no seu Programa de Pós-Graduação, que há quase 3 décadas abriga projetos de mestrado e mais recentemente de doutorado em Jornalismo Científico e Comunicação Científica, de maneira geral. Ela é responsável por pelo menos uma centena de dissertações e teses já defendidas neste campo, contribuindo, vigorosamente, para a formação de novos quadros (basta lembrar que dos 5 diretores da ABJC, 4 têm mestrado ou doutorado pela UMESP e dois são seus professores).

Os exemplos citados merecem ser seguidos porque indicam o caminho adequado para o crescimento do Jornalismo Científico e da divulgação científica no Brasil. A área precisa de apoio permanente para continuar se desenvolvendo porque é vital para a democracia e para a qualificação do debate sobre ciência, tecnologia e inovação. Os exemplos da Fapesp, do Labjor/Unicamp, da UMESP e da Sanofi-Aventis, que emprestaram apoio ao Congresso Brasileiro de Jornalismo Científico em 2007, merecem ser seguidos.

Sem uma divulgação e um Jornalismo Científico qualificados, a ciência e a tecnologia brasileira que, em muitas áreas, competem com as realizadas nos países chamados hegemônicos, permanecerão distantes dos cidadãos, das autoridades, dos parlamentares, da sociedade de maneira geral. Impedir que isso aconteça é dever de todos nós.


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*Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP e de Jornalismo da ECA/USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

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ALUNO EM ATIVIDADE: Comente o texto acima, explicando por que o jornalismo científico é importante.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Jornalismo Ambiental - Evolução e perspectivas

Imprensa e Pantanal

Laboratório Ambiental de Jornalismo
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Campo Grande, 29 a 31 de outubro de 1997


Jornalismo Ambiental - Evolução e Perspectivas

por Roberto Villar*

 O meio ambiente é o centro de uma disputa de poder neste final de século. Os empresários estão conseguindo roubar a bandeira dos movimentos ecológicos. As palavras de ordem agora são custo ambiental e parceria. As empresas não só descobriram que podem ganhar muito dinheiro fazendo o que os ecologistas vem dizendo há mais de duas décadas, como perceberam que evitar o desperdício e implantar tecnologias limpas é uma questão de sobrevivência no mercado globalizado.

 O "ambientalismo empresarial" ganha força. Publicamente, as grandes indústrias fazem campanhas publicitárias e plantam notícias na imprensa. Veladamente, exercem um forte lobby para afrouxar a legislação ambiental e desacreditar as ONGs. Nos discursos, defendem a liberdade de imprensa e a democracia. Nos bastidores, são soldados de uma conspiração do silêncio - a censura empresarial - criada para que a população receba apenas a versão dos poluidores. Este é o pano de fundo para entender o jornalismo ambiental dos anos 90.

 O jornalismo ambiental tem características diversas em cada região do Brasil. A existência e a própria qualidade das notícias publicadas estão diretamente relacionadas à mobilização da sociedade em torno do tema. As Organizações Não-Governamentais enfrentam dificuldades para publicar os seus pontos de vista em todo o país, mas onde a atuação das entidades é fraca, o noticiário sobre problemas ecológicos é quase inexistente.

 Os grandes grupos de comunicação do país sabem que não podem ignorar a questão ambiental, meramente por uma questão de mercado, e por isso fazem pequenas concessões, abrindo janelas periféricas aqui e ali. No entanto, mantêm o jornalismo ambiental com um status marginal. E o jornalista que se especializa é rapidamente tachado de ecochato ou ecologista, minando a credibilidade do profissional. Principalmente quando começa a discutir com profundidade as questões ecológicas e denunciar grandes empresas poluidoras.

 A imprensa brasileira dificilmente trata dos problemas ambientais com profundidade na pauta das discussões públicas. As exceções são fruto de um esforço pessoal e isolado. O meio ambiente é manchete e ganha espaço e tempo na cobertura diária quando acontecem desastres, ou quando os assuntos repercutem no exterior, como a morte de um ecologista famoso, as queimadas e os desmatamentos na Amazônia e na Mata Atlântica. A pauta ambiental ainda vem das agências internacionais.

 A grande imprensa não desvenda a promiscuidade que existe entre os órgãos ambientais e as indústrias. Também evita debater temas brasileiros, como a falta de saneamento no país.
A Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental reuniu os maiores especialistas em saneamento ambiental de 14 a 19 de setembro em Foz do Iguaçu. Os jornalistas não apareceram. Dias depois, o governador do Paraná, Jaime Lerner, promoveu os Jogos da Natureza e surgiram centenas de repórteres para registrar o espetáculo.

 Diante deste novo "ambientalismo empresarial", uma aliança entre jornalistas, cientistas e ecologistas é de vital importância para a democracia. Um cidadão só tem liberdade de escolha se ele conhece as opções existentes. Se só existe uma versão, não há o que escolher.
O cidadão não tem como confrontar as informações. Por isso, os repórteres tem que ouvir o que os pesquisadores e ambientalistas têm a dizer. Por outro lado, não podem se transformar em meros assessores de imprensa de entidades ecológicas ou instituições de ensino. É preciso bom senso e equilíbrio. Lembrando sempre que o poder da imprensa é determinar os assuntos que estarão na agenda das discussões públicas da sociedade.

 Hoje, os empresários têm mais acesso à imprensa. Poucas ONGs já aprenderam a disputar tempo e espaço na mídia. Algumas exceções são a Greenpeace e a Fundação SOS Mata Atlântica. A maioria das entidades ambientalistas não conhece o funcionamento dos veículos de comunicação, o processo de produção das notícias. Por isso, melhorar a qualidade do jornalismo ambiental não passa apenas pela educação ambiental dos jornalistas, mas também pela educação jornalística dos ecologistas.

 Além da censura empresarial, existe a omissão dos jornalistas nas redações. Quanto mais especializado, mais o repórter ou editor começa a questionar a sua concepção de mundo e o seu próprio estilo de vida. Como o jornalista pode falar de harmonia entre os homens e a natureza se não sabe o que é a harmonia? Como poderá estimular a solidariedade tendo um espírito individualista? Se é verdade que a destruição da natureza inicia no espírito dos homens, os jornalistas terão que mudar o seu próprio estilo de vida no processo de aprendizado do jornalismo ambiental.

 O jornalismo ambiental é uma especialização do jornalismo, com todas as regras gerais da profissão. A reportagem de meio ambiente tem que ser "vendida" como qualquer outra matéria. Deve ser novidade e de interesse público. A linguagem tem que ser simples. "O estilo é a arte de dizer o máximo com o mínimo de palavras", dizia Jean Cocteau. O repórter tem que oferecer boas manchetes para disputar espaço nas redações, e se diferenciar com um trabalho de qualidade. Quando fizer denúncias, deve ter provas suficientes para enfrentar a reação dos poluidores, e a pressão dos editores.

 Alguém já disse que a reportagem é a arte de reconstituir os fatos, com emoção. E com opinião, eu acrescentaria. Sem uma opinião própria fundamentada sobre os fatos não há como escrever uma boa reportagem. A neutralidade da imprensa é uma bobagem que inventaram para enganar os leigos. O que existe, e deve ser perseguida, é a honestidade. Quando escolhemos uma pauta, a abertura de uma matéria ou um título, estamos sendo parciais, vendo o mundo com os nossos olhos. Afinal de contas somos seres humanos, e não máquinas de calcular.

 Uma tendência que surge cada vez com mais força no jornalismo ambiental é a divulgação de histórias humanas e bons exemplos. Menos catástrofes e previsões científicas assustadoras, e mais dicas práticas para o dia-a-dia das pessoas. No Brasil, quem segue este estilo é o Repórter Eco, da TV Cultura de São Paulo, programa que conseguiu sobreviver à ressaca pós-Rio 92 e vem mantendo um bom índice de audiência em todo o país.

 Este tipo de reportagem educativa é de grande importância, para mostrar que é possível viver em harmonia com a natureza. No entanto, o jornalismo ambiental não pode se limitar apenas a bons exemplos. O repórter especializado tem que ser também um cão de guarda, e denunciar os desmandos. Uma matéria retrata a realidade. Se a realidade é trágica e catastrófica, a imprensa não pode criar um mundo fictício em nome da educação ambiental do público. Deve procurar, porém, contextualizar o homem dentro da natureza, e sempre apresentar os problemas com as soluções ambientalmente sustentáveis.

 O jornalismo ambiental não se limita à grande imprensa. Os jornais de bairro, rádios e televisões comunitárias também são alternativas importantes, pois permitem um envolvimento muito mais direto com o público. A pauta dos veículos reflete mais as necessidades da região. O principal jornal de bairro de Porto Alegre - Oi! Menino Deus - conseguiu fazer, entre 1995 e 1996, reportagens investigativas na área ambiental que lhe renderam diversos prêmios estaduais, vencendo até os grandes jornais gaúchos.

Breve história do jornalismo ambiental

O jornalismo ambiental é uma tendência irreversível na imprensa mundial. Depois da Rio 92, houve um retrocesso nos Estados Unidos e no Brasil. Por outro lado, cresce de importância no Leste Europeu. Apesar da diminuição de tempo e espaço em alguns países, entidades de jornalistas especializados em meio ambiente trabalham na formação de profissionais, melhorando a qualidade das matérias. A primeira organização surgiu na França, ainda na década de 60.

Em 1968, aconteceu em Paris a Conferência da Biosfera. Na mesma época, surgiu na França a primeira entidade de jornalismo ambiental. No mesmo ano, era preso no Brasil - pela Operação Bandeirantes - o jovem repórter Randau Marques, primeiro jornalista brasileiro a se especializar em meio ambiente. Randau foi considerado subversivo na época porque escreveu num jornal da cidade paulista de Franca (berço dos curtumes) reportagens sobre a contaminação de gráficos e sapateiros com chumbo, e já questionava a expressão "defensivos", mostrando que os agrotóxicos eram responsáveis pela mortandade de peixes e pela intoxicação de agricultores. Depois, Randau se especializou em assuntos urbanos e questões ambientais no Jornal da Tarde.

Pelo diário do Grupo Estado, Randau cobriu na capital gaúcha a primeira polêmica ambiental envolvendo uma grande indústria. O fechamento da fábrica de celulose Borregaard, do dia seis de dezembro de 1973 até 14 de março de 1974, atraiu a atenção de jornalistas de outros estados e do exterior. A indústria, hoje chamada de Riocell, fica nas margens do Guaíba, na frente de Porto Alegre. A poluição uniu o embrionário, mas aguerrido, movimento ecológico gaúcho. No entanto, não é a imagem de uma chaminé que representa a época. Foi a famosa foto do estudante universitário Carlos Dayrel sentado numa acácia, tirada no dia 25 de fevereiro de 1975. Ele ficou horas em cima da árvore que seria cortada pela Prefeitura para a construção de um viaduto. Os protestos dos ecologistas ganharam ampla cobertura da imprensa, amordaçada pela censura militar.

Foi depois da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972, que as questões ambientais começaram a aparecer com maior freqüência na imprensa internacional. O novo boom ocorreu em meados dos anos 80, com a descoberta do buraco na camada de ozônio e as primeiras hipóteses sobre o impacto das atividades humanas no aumento do aquecimento global. A imprensa brasileira reagiu às preocupações dos países do primeiro mundo, e se voltou para os problemas ambientais da Amazônia.

Em agosto de 1989, foi realizado em São Paulo o Seminário "A Imprensa e o Planeta", promovido pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão e pela Associação Nacional de Jornais. Três meses depois, aconteceu o encontro mais importante para o jornalismo ambiental brasileiro. A Federação Nacional dos Jornalistas realizou no final de novembro, em Brasília, o "Seminário para Jornalistas sobre População e Meio Ambiente". 
Participaram especialistas internacionais, como o francês François Terrason, especialista em planejamento ecológico e agricultura, a norte-americana Diane Lowrie, da Global Tomorrow Coalition, a jornalista argentina Patricia Nirimberk, da Fundação Vida Silvestre, o tcheco Igor Pirek, da Agência de Notícias CTK, o educador Pierre Weil, da Universidade Holística Internacional e especialistas brasileiros, como o repórter Randau Marques, o professor Paulo Nogueira Neto, o físico Luis Pinguelli Rosa, o agrônomo Sebastião Pinheiro e o jornalista Fernando Gabeira.

A união dos jornalistas de meio ambiente

A partir do seminário da Fenaj em Brasília, em 1989, formaram-se núcleos regionais de jornalismo ambiental em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, com o objetivo de criar uma entidade nacional de jornalismo ambiental. No entanto, sobrou apenas o grupo gaúcho. O Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (Nejrs) nasceu dentro do movimento ambientalista, no dia 22 de junho de 1990, num debate com o presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, filósofo Celso Marques, e o presidente da União Protetora do Ambiente Natural, jornalista Carlos Aveline.

Nestes sete anos, o Nejrs trabalhou junto com as principais ONGs gaúchas e também promoveu debates no meio universitário. Em junho de 1991, promoveu o Encontro Jornalismo e Ecologia, junto com a Ufrgs, SBPC, PUCRS e Consulado do Estados Unidos, que viabilizou um debate via-satélite. Entre abril e maio de 1992, realizou junto com a Faculdade de Comunicação da Ufrgs o I Curso de Extensão em Ecologia para Jornalistas, preparatório para a cobertura da Rio 92. O II Curso ocorreu entre novembro e dezembro de 1993, com o objetivo de discutir o papel da imprensa nos desastres ambientais. O resultado foi a publicação do Manual de Emergência para Desastres Ambientais.

O Nejrs foi agraciado pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul com a Medalha do Conservacionista, em junho de 1994. No mesmo ano, recebeu o prêmio Contribuição Especial da Associação Rio-Grandense de Imprensa. O Núcleo é formado por 17 jornalistas, 7 na grande imprensa, mas apenas um fazendo jornalismo ambiental diário. Os integrantes da entidade criaram o jornal Sobrevivência da Agapan e um encarte verde dentro do jornal do Sindicato dos Jornalistas, entidade que cede uma sala ao Nejrs. A próxima publicação do Núcleo será um boletim eletrônico quinzenal distribuído na Internet.

Em nível global, a principal entidade de jornalismo ambiental é a Sociedade de Jornalistas de Meio Ambiente do Estados Unidos. A Society of Environmental Journalists foi criada em 1990 por um dúzia de repórteres premiados, e atualmente tem mais de 1.100 sócios. A entidade se dedica a melhorar a qualidade, precisão e importância das reportagens de meio ambiente.Para isso, promove encontros e debates em todo o país. A Sétima Conferência Nacional da SEJ ocorreu de 3 a 5 de outubro na Universidade do Arizona, em Tucson.

A criação de uma rede mundial de jornalistas de meio ambiente foi uma das decisões do Encontro Internacional de Imprensa, Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizado entre 20 e 24 de maio de 1992 em Belo Horizonte. Batizado de Green Press, este encontro estava na agenda oficial da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92. Mas foi somente em 1993, numa reunião em Dresden, na Alemanha, que foi criada a Federação Internacional de Jornalistas de Meio Ambiente.

Atualmente, a Federação é uma aliança formada por jornalistas de 52 países. O principal objetivo da entidade é ampliar a compreensão pública dos problemas ambientais através do intercâmbio entre os profissionais especializados. Para isso, realiza encontros anuais.

O primeiro congresso ocorreu em Paris, em 1994, no Palácio da Unesco. Em 1995, a reunião aconteceu no campus do Massachusetts Institute of Technology (MIT), na cidade de Cambridge, junto com a reunião anual da Sociedade de Jornalistas de Meio Ambiente dos Estados Unidos. Depois, a Federação se reuniu em Cebu City, na Ásia (1996) e em Budapeste, na Hungria (1997). Em 1998, o Congresso será no Sri Lanka, depois na América Latina, provavelmente na Colombia, e no ano 2000 no Egito.

O Núcleo de Ecojornalistas acredita que é preciso formar uma rede virtual de jornalistas especializados em meio ambiente no Brasil, através da Internet. Desse modo, é possível trocar experiências, pautas e fontes. Também defendemos a aproximação com a Federação Internacional de Jornalistas de Meio Ambiente. Já existem no Alternex duas conferências eletrônicas para facilitar a troca de informações. Uma em inglês - env.journalism - e a outra em português e espanhol - amb.jornalismo. O intercâmbio internacional e a parceria com as ONGs e cientistas com certeza elevará a qualidade do jornalismo ambiental praticado no país.

As entidades


NEJRS - Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul

Rua dos Andradas 1270, 13.o andar, Porto Alegre.
CEP: 90020-008. E-mail: nejrs@ax.apc.org
Coordenador: Juarez Tosi
Telefone: (0xx51) 2254555 (Procuradoria da República/RS)


SEJ - Society of Environmental Journalists

P.O. Box 27280
Philadelphia, Pa. 19118
Presidente: Kevin Carmody, do Chicato Daily Southtown


IFEJ - International Federation of Environmenal Journalists

14, Rue de la Pierre Levée, 75011 - Paris, France
Tel: +330148054607
Fax: +330149239149
Presidente: Jim Detjen - E-mail: detjen@pilot.msu.edu
Secretário: Valentin Thurn

ABRAÇO - Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária

Avenida Presidente Vargas 962, sala 711 - Rio de Janeiro
CEP: 20071-002
Fone/Fax: (021) 2531154
Presidente: Tião Santos

* O autor é Roberto Villar, 29 anos, responsável pelos programas Gaúcha Ecologia, da Rádio Gaúcha, e Ecologia em Destaque, da Rádio CBN de Porto Alegre. Sócio do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul. Cobriu pela Gaúcha duas conferências da ONU, a Cúpula da Terra, realizada em 1992 no Rio de Janeiro, e a Habitat II, em Istambul no ano passado. Já participou de dois Congressos da Federação Internacional de Jornalistas de Meio Ambiente, em Paris (1994) e Cambridge/USA (1995). Em maio de 1995, passou duas semanas na Alemanha, à convite do governo alemão, conhecendo projetos ambientais. Já recebeu mais de dez prêmios regionais de jornalismo, entre eles o Primeiro Lugar em Reportagem Geral do Prêmio da Associação Rio-Grandense de Imprensa, edição de 1996, com reportagem sobre a maior mortandade de peixes registrada no Guaíba, publicada no jornal de bairro Oi! Menino Deus